segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Sexo é poder

Gabriela Masson, ou Lovelove6, como é conhecida na internet, não queria ser fotografada. Ela achava que seus olhos estavam inchados porque havia terminado a noite anterior em lágrimas, após uma discussão sobre feminismo. Suas publicações, aliás, abordam temáticas feministas. Lovelove6 quer quebrar tabus entre suas leitoras, mas, apesar de dominar a sexualidade feminina em seus desenhos, falar sobre sexo ainda não é tão fácil. Em alguns momentos, Masson deu risadas nervosas e precisou de pausas para falar o que pretendia.

A autora da história em quadrinhos Garota Siririca, das zines A Ética do Tesão na Pós-Modernidade I e II e de tirinhas do Batata Frita Murcha estava em São Paulo para a segunda edição da Feira Plana, que aconteceu no Museu da Imagem e do Som. Gabriela, que tem 24 anos, montou a banca Femizine com colegas da Zine XXX, grupo de mulheres jovens desenhistas.

Ela cursa licenciatura de Artes Plásticas na Universidade de Brasília (UnB) e pretende morar em São Paulo. Porém, o sucesso de suas publicações na internet ainda não foi revertido em dinheiro suficiente para a mudança. A artista confessou que tem medo de ter que “se vender”. “Já pensou se a Capricho me chama para um trabalho? Vou fazer arte para o inimigo em troca de dinheiro”, brincou.

Gabriela contou à Fórum porque assina como Lovelove6. Aos 15 anos, enquanto acessava um site de pornografia, uma publicidade mostrou a mensagem: “Lovelove6 quer conversar com você”. Claro que ela não acreditou, mas gostou do apelido.

Fórum – Você desenha para o Batata Frita Murcha, faz a Garota Siririca e tem dois volumes do zine A Ética do Tesão na Pós-Modernidade. Qual desses faz mais sucesso?

Gabriela Masson (Lovelove6) – Bom, acho que os três são bem sucedidos. O Batata Frita circula bastante pelo Facebook, gera uns likes e tem bastante popularidade. Mas é bem abstrato esse lance de likes. O “Ética” já tem um alcance mais real. Eu lancei o primeiro volume em março do ano passado, na Feira Plana I, e desde então acho que já fiz umas 700 cópias e vendi tudo. A segunda edição também está vendendo bastante. A Garota Siririca tem um alcance especialmente entre os quadrinistas, apesar de que muita gente conhece. O Batata Frita Murcha, menos.

Fórum – Para muita mulher, é difícil confessar esses interesses em masturbação e sexo. E então vem a Garota Siririca. Para você, ainda é difícil falar sobre sexualidade ou com a Garota Siririca você rompeu obstáculos?

Lovelove6 – Falo sobre sexualidade, mas me preservo. Não gosto de falar sobre a minha prática sexual individual, porque acho que não vem ao caso. Mas rola uma necessidade de haver algumas abordagens. Faço quadrinhos sobre sexualidade e voltado para mulheres. Ao longo do meu crescimento, o que reparei é que, por exemplo, eu não me masturbava até os meus 20 anos. E minhas amigas também não. A maior parte das meninas que conheço diz que não curte masturbar, mas adora sexo. Então comecei a reparar que era um pouco contraditório isso, sabe? E depois que eu passei a (pausa)… Me masturbar…

Fórum – Meio difícil falar sobre isso, né?

Lovelove6 – Não sei, foi isso que me motivou a fazer a Garota Siririca. Depois que comecei a sacar como funcionava um orgasmo, com uns 20 anos, comecei a perceber que a maioria das minhas amigas nunca tinha gozado. E que a maioria das mulheres também não. Passei por maus momentos de chegar a pensar que eu era a mulher frígida. Alguns homens já vieram falar mal de mim por causa disso. Amigos faziam fofoca, falavam que eu era estranha. Reparei que era um problema meu, porque não me compreendia muito bem, como meu corpo funcionava. E também era um problema deles e dessa sociedade no geral porque é um “tabuzão” mesmo falar de siririca. Senti a necessidade de fazer a Garota Siririca para compartilhar e tornar isso um assunto mais natural, para a gente conversar sobre isso melhor. Porque os homens estão se masturbando desde os oito anos de idade, e as mulheres não. Isso faz toda a diferença.

Fórum – Você falou em uma entrevista que a Garota Siririca te ajudou na ruptura dos limites do espaço restrito em que a sociedade quer fazer caber sua experiência feminina. Você acha que também está ajudando outras mulheres? Está vendo resultado?

Lovelove6 – Eu estou, na verdade. Não sei exatamente que reflexo a Garota Siririca tem na prática das pessoas, não sei se realmente mais meninas passaram a se masturbar, a se conhecer e a conversar sobre isso com as amigas. Mas, no meu círculo social, tenho falado mais sobre isso com as minhas amigas e, pra fazer a Garota Siririca, preciso fazer pesquisas. Então, além de conversar, preciso praticar também para saber o que acontece, para ter mais ideias. Tenho descoberto uns tópicos que não são falados quando a gente fala de siririca. Por exemplo, tive uma conversa com uma amiga que teve o primeiro orgasmo dela recentemente. E ela veio me falar que não gostava de se masturbar porque não conseguia chegar ao orgasmo, só chegou através da penetração. Comecei a falar: “Cara, talvez a respiração… Se você respirar mais rápido ou, de repente, mais devagar. Se você tentar contrair os músculos”. E a gente se deu conta de que isso não são dicas que as pessoas dão uma para a outra. A gente acha que é só um estímulo direto e cabuloso ali, super rápido e que vai acontecer. E na verdade, não.

Fórum – Você acha que falta poder para as mulheres? Tanto em relação ao próprio corpo, quanto ao espaço público?

Lovelove6 – Total. Acho que a gente vive em uma situação de extremo cerceamento do próprio corpo. Como se a gente não tivesse liberdade mesmo sobre o próprio corpo. Isso se reflete de maneiras bem objetivas tipo violência e hostilidade na rua, coisa que a mulher sofre por uma questão banal como os pelos. Se a “mina” não depila a perna, se não depila o sovaco, está sujeita a apanhar na rua. E isso acontece, na verdade. As pessoas vão hostilizá-la, ela pode apanhar na rua. É fato. As meninas que cortam o cabelo curto e têm uma aparência mais “sapata”, por exemplo, quando sofrem violência é um exemplo de total falta de liberdade sobre o corpo. Muitas vezes nem depende da orientação sexual da menina realmente, porque ninguém sabe só olhando para a pessoa. Presumem uma série de coisas a respeito por causa de um visual que uma mulher não deveria ter.

Acontece esse tipo de violência, de hostilidade, de marginalização. Acho muito sério. Os pentelhos são a coisa mais visível, mas isso se estende até a prática sexual dela. Por isso não conhecemos o nosso corpo e também não querem que a gente conheça. Tem um movimento contrário, para que a gente reconheça o nosso corpo como sujo, vergonhoso e nojento. A sociedade no geral acha o nosso corpo bem nojento. Por isso fazem essas pressões para depilações extremas e constantes, e sabonetes íntimos com cheirinho de margarida. Isso é bem sério. Se você reflete, não só como as mulheres, mas como lidam no geral com o corpo das mulheres. Quando o homem está transando com uma mulher e se recusa a fazer um oral porque sente nojo. E as pessoas falam que sentem nojo e que não curtem como se fosse muito natural. É extremamente bizarro, na verdade.

Fórum – Então, sexo combina com política?

Lovelove6 – Total. Sexo é política. Tem tudo a ver.

Fórum – Você acha que falta liberdade sexual no geral ou é só no meio feminino?

Lovelove6 – Eu reconheço que existem problemas em relação aos homens também. Tem partes do corpo dos homens que são tabus. Por exemplo, a menina lambe o mamilo do cara e ele fica “travadão” porque isso é “meio gay”. Acho que os caras estão bem oprimidos na verdade. Mas como estão numa posição de dominância em relação às mulheres, não sei se não percebem, se não se importam, ou se não faz falta, mas acho que eles também aproveitam muito pouco do seu próprio corpo.

Fórum – Como você acha que a mídia erótica e pornográfica pode ajudar a reverter esse quadro?

Lovelove6 – Isso é bem complicado. Porque pornografia tem um reflexo muito sério. A maneira como a indústria pornográfica produz é muito cruel e perigosa. A verdade é que, como não tem educação sexual nas escolas e como isso é tabu dentro da família, a gente acaba aprendendo sexo através da pornografia. E a gente acessa a pornografia mais comercial e hegemônica possível. Indústria pornográfica é um problema a ser discutido. Reconheço que faço coisas que podem ser pornográficas, mas acho que não dá pra falar da indústria se a gente não se atentar aos objetivos com o qual essa pornografia é feita, e que ideologia ela está veiculando. Também não sou contra, na verdade. Consumo pornografia, consumo algumas bem hegemônicas, do tipo conflitante pra mim. Consumo coisas que não têm nada a ver com minhas práticas. Tesão é algo muito difícil de se politizar completamente, e acho que não é algo absolutamente controlável. Mas entendo que tenha alguns reflexos na prática. Consumo pornografia, mas a pornografia que eu faço tem outra abordagem, porque tenho consciência para não deixar a pornografia que consumo se refletir da maneira que os produtores querem que ela se reflita na minha prática. Tenho que entender que isso é um produto, entender quais mensagens estão veiculando.

Fórum – Fora a indústria, queria saber mais sobre a mídia. Revista de mulher nua, revista sobre sexo, blog sobre sexo. Você acha que eles deveriam ter abordagem política ou podem ser puramente eróticos ou pornográficos?

Lovelove6 – Não, acho que não tem essa de puramente pornográfico ou puramente erótico. Você está sempre veiculando alguma ideia. E essas ideias de sexo são especificamente machistas, ou feministas. Porque em revista de mulher pelada as “minas” estão lá todas magras e depiladas. Os caras estão cheios de Photoshop. Tem esse lance de transformar completamente o corpo da mulher. E então os caras estão achando que na cama vão encontrar isso, e vão agir que nem o cara que eles viram no vídeo. E as meninas vão se sentir um lixo na hora que tirarem a roupa, porque elas não são essa mulher da capa. Acho tudo muito prejudicial, mas não pela coisa em si, acho que é prejudicial pela falta de informação, pela formação política a que as pessoas não têm acesso. Esse lance de não associar pornografia com política não existe. Está extremamente associado, até porque é pelo sexo que as mulheres são dominadas. Essa é a grande desculpa para a gente ser dominada. Através do casamento, através do estupro. Sexo é uma estratégia política. A maneira como você pratica ele é uma estratégia.

Fórum – O que você acha de objetificação sexual? Caso seja a mulher ou o homem que se objetifica, é aceitável?

Lovelove6 – Não acho que é errado ter fetiche sadomasoquista, essas coisas. Na hora que estamos praticando isso, temos que ter consciência de que a gente está numa sociedade que entende a mulher como submissa. Então, por exemplo, na cama com meu parceiro eu quero ter um lance de submissão, onde sou submissa. Mas quero que meu parceiro saiba que isso é um lance só na cama, que na nossa relação cotidiana ele não pode fazer isso comigo, e que isso não significa que sou uma pessoa submissa. Isso não pode ter um reflexo além.

Fórum – Mas você acha essa prática saudável?

Lovelove6 – Talvez seja, não sei (Risos). Tipo assim, não sou sexóloga. Estou falando sobre sexo, mas não tenho uma formação de psicologia. É saudável dar prazer para as pessoas, se elas se sentem felizes. Isso não pode ser feito de maneira acrítica, você tem que estar questionando o tempo inteiro. Sempre me questiono nas posições em que me coloco, sempre converso com meus parceiros e parceiras sobre esses lances. Para que o que a gente faz na cama seja compreendido como jogo de sexo, e não algo que vá me definir.

Fórum – O movimento LGBT ainda tem muita dificuldade de compreender a questão bi e as pessoas trans, no geral. O que você acha disso?

Lovelove6 – Estou um pouco afastada dos movimentos LGBTT, na verdade.

Fórum – Você é mais ligada ao feminismo?

Lovelove6 – Sim. E meu feminismo é inclusivo, na verdade. Quero praticar um feminismo que seja solidário às mulheres negras, às pessoas trans e às lésbicas. O que está acontecendo no movimento LGBTT é o questionamento em relação à dominância dos homens gays. Muitos desses homens gays são misóginos, machistas, e não contemplam as pautas lésbicas e as pautas trans. Dentro do feminismo também existe esse problema. O feminismo radical entra muito em conflito com a questão das transexuais. É realmente difícil, é meio complicado. Esqueci a pergunta, desculpa, repete pra mim?

Fórum – Se você realmente acha que o movimento LGBT tem dificuldades de compreender as pautas das pessoas trans e bis.

Lovelove6 – É, tem, na verdade. Mas acho que é melhor não falar isso (risos).

Fórum – Por que? Pode falar.

Lovelove6 – De uns anos para cá, a gente tenta explorar mais a questão trans. Conhecer e entender as pessoas trans. E só recentemente que as pessoas trans começaram a ter um pouquinho mais de liberdade para viver como querem viver. Acho que um movimento só não pode contemplar todos esses corpos que são muito distintos, sabe? O movimento unificado LGBTT. Porque uma pessoa trans não é exatamente uma pessoa gay. Entendo que o movimento LGBTT tenha sido muito importante nos anos 80 e 90, mas talvez agora realmente precise haver algumas distinções, umas separações. Não no sentido de cortar o diálogo, mas para que esses grupos específicos possam se fortalecer sobre isso. Até porque tem muitas pautas em comum, mas tem muitas pautas muito específicas também.

Fórum – Entendi. Então talvez as pessoas trans podem se encaixar com os não-binários.

Lovelove6 – Ainda tem essa questão queer. Tem pessoas que não querem ser reconhecidas nem como homens, nem como mulheres. E isso não tem nada a ver com a orientação sexual dessas pessoas. Precisa haver grupos que possam discutir essas questões específicas. Ao mesmo tempo, precisam desse diálogo constante porque são minorias e precisam fazer número para conseguir ter uma expressividade nas práticas da sociedade. Acho muito genérico e abstrato o movimento LGBTT, mas reconheço que precisa existir enquanto não houver uma solução. Acho muito complicado falar sobre isso porque não sou trans, não sou lésbica, e atualmente estou me relacionando com um homem. Vivo os privilégios de uma menina hétero. Poucas vezes consigo me relacionar mais profundamente com uma mulher. Então não sei realmente como é estar inserida nesse movimento LGBTT. O que falo é do contato que tenho por ser bissexual e pelo o que vejo das minhas amigas lésbicas e trans falando sobre o movimento LGBTT.

Fórum – Você acha que as críticas de que o movimento feminista é muito conservador são válidas? Ou são “male tears”? Em relação às trans, a piadas e ao sadomasoquismo.

Lovelove6 – Não acho que são válidas, mas também não acho que são male tears. O movimento feminista é muito mal compreendido em geral, até por muitas meninas que se dizem feministas. O movimento é muito plural. Existem várias vertentes de feminismo, ele não é uma cartilha. Não existe uma bíblia, como existe a bíblia do comunismo. E acho que todas têm abordagens muito válidas, na verdade. Feministas radicais, transfeministas, feministas negras… E elas divergem muito entre si. Na verdade, esse é um ponto forte do feminismo. A gente está sempre se questionando e tem sempre um diálogo forte entre as feministas. Por mais que tenha conflitos e embates teóricos fortes, esse movimento está sempre se renovando… Por exemplo, um dia foi só feminismo radical, depois o movimento lésbico, aí veio o transfeminismo, e então as feministas negras começaram a falar que esse feminismo não as contemplava… Acho isso importante. Acho que as pessoas têm uma visão muito estereotipada do que é feminismo. Ou é essa menina que não gosta de nada, não tem senso de humor, que odeia tudo, odeia todos os homens. Ou é essa mina que tem que ser muito livre, muito louca. Tenho essa impressão. E na verdade não, falar de pornografia dentro do feminismo é polêmico para as próprias feministas, e isso é uma construção constante que as feministas fazem entre elas. Existem as que são a favor e as que são contra. Existem as que fazem pornografia feminista, e aí existem as que odeiam essa pornografia feminista porque ela ainda é pornografia.

Acho uma grande merda o lance das piadas. Acho que não deve ser feito mesmo, com nenhum tipo de corpo. São pessoas muito medíocres que fazem esse tipo de piada. Estou esperando as pessoas começarem a fazer piada sobre os homens brancos, que a gente não vê nenhuma.

Enfim, acho que as pessoas precisam estudar feminismo. E isso não é ficar no Facebook, em uma discussão interminável sobre pentelho ou sobre Miley Cyrus. Estudar feminismo é você trazer os teóricos feministas e saber de onde é que está surgindo essa ideia. E ir atrás de estudar sobre colonialismo, racismo também. Porque feminismo não é só uma questão específica de mulher trabalhar, ou de mulher conseguir um espaço específico. Não é só sobre estupro. Tem muitas questões que precisam ser contempladas para se ter uma visão mais universal, mas ao mesmo tempo específicas das pautas feministas. E você precisa se posicionar. Entro em conflito porque me identifico muito com abordagens radicais, ao mesmo tempo não quero excluir pessoas trans e quero me solidarizar com as companheiras negras. Então não sei, é difícil mesmo. São vertentes distintas que eu simpatizo. Não é um problema para as feministas, mas você está constantemente se autoquestionando e se desconstruindo para se construir de outra forma. E as pessoas não têm essa compreensão, acham que você é feminista como se fosse comunista. Como se já tivesse a cartilha estereotipada.

Fórum –Você foi bem aceita na cultura das zines?

Lovelove6 – Fui porque estou em um espaço muito privilegiado em Brasília. Dentro do meu curso existe uma mentalidade mais libertária, um pouco mais politizada, simpática ao feminismo. Tantos os homens quanto as mulheres do meu curso, a maioria, reconhecem a necessidade de discutir essas coisas. E são conversas comuns que a gente tem. Então comecei a fazer zines entre pessoas que também desenhavam, que faziam zines comigo. Também existiam outros grupos como a Revista Samba, que abriram o ateliê para a gente, que faziam o contato direto, que eram nossos amigos. Fui acolhida e incentivada a fazer. Rolavam pressões para que eu começasse a fazer quadrinhos quando ainda estava meio incerta sobre o que fazer.

Fórum – Então tem uma cena feminista forte na cultura das zines?

Lovelove6 – Não tem, na verdade. Existe muita zine política, muita zine feminista sim. Mas a maioria… Ai, não sei, espera. É que estou pensando em quadrinhos especificamente. O próprio suporte da zine parte da cultura punk, do “faça você mesma”. Então, meio que as garotas já se empoderam desse veículo. Existem mesmo no Brasil muitas zines feministas, uma cena meio forte. Mas vai depender muito do conteúdo da zine. No meu pequeno núcleo de quadrinhos, abordagens feministas não são muitas, na verdade.

Fórum – Li que teve um episódio de machismo em alguma feira que você participou. Tem muito machismo nesse meio de quadrinista, desenhista, cartunista?

Lovelove6 – Tem. A galera fala que não tem, mas tem sim. Na hora do “vamos ver”, acontece uma série de episódios meio tristes. Esse que aconteceu foi no FIQ [Festival Internacional de Quadrinhos], em Belo Horizonte, e um produtor de quadrinhos estava lá representando um grupo. Ele fotografou a virilha de uma cosplayer que estava vestida da super-heroína Estelar, a mutante. Depois, fotografou a bunda de outra menina e postou na internet fazendo chacota, ridicularizando-a. Rolou esse episódio e estava acontecendo o movimento da zine XXX nesse momento, em que eu estava encontrando muitas mulheres interessadas em fazer quadrinhos na internet, e isso revoltou a gente. Porque essas coisas acontecem, e rola uma pequena repressão do tipo: ‘Cara, é muito feio isso que você fez, apaga essas fotos’. Aí o cara apaga e está tudo bem. Não está tudo bem, sacou? Isso é crime, na verdade. Se a menina quisesse, ela poderia processar o cara. E isso é tratado levianamente por todo mundo, porque ninguém quer entrar em conflito, todo mundo quer ficar amigo de todo mundo. Manter uma boa vizinhança. E enquanto isso tem pessoas que estão sendo oprimidas.

Fórum – Qual o perfil dos seus leitores, pelo contato com as redes sociais?

Lovelove6 – Não sei, não dá pra definir. Não sei nem se a maioria é de mulheres ou homens, isso acho legal. Talvez seja bem próxima a quantidade de mulheres e de homens que curtem meus trabalhos. Não faço ideia da formação política dessas pessoas, muitas vezes essas me adicionam no Facebook porque viram um desenho meu e gostaram. Aí vou dar uma olhada no mural da pessoa e tem coisas absurdas, racistas e homofóbicas. Fico: ‘Gente, como é contraditório’. Não sei o que entendeu, não dá pra saber. Não sei a idade também.

Queria muito que minhas coisas fossem acessadas por pessoas mais novas, a partir de uns 13 anos. Talvez antes, mas acho que seria polêmico. As pessoas começam a se entender como seres sexuais a partir dos sete anos. Em Salvador, por exemplo, tenho amigos que perderam a virgindade com seis, sete anos. Que tiveram relação sexual antes da masturbação, talvez. Então, acho que tem que ser um assunto com o qual as crianças e pré-adolescentes entrem em contato. Não acho que tem que ser restringido esse tipo de acesso, porque acabam acessando internet e veem o pior tipo de pornografia. Queria que minhas coisas fossem lidas por pessoas mais novas mesmo, de ensino fundamental, ensino médio. De uns 13 aos 18 anos.

Ainda não consegui acessar esse público, o que não sei como fazer, mas acho que seria importante, é especialmente aí que minhas coisas podem ter um reflexo mais direto e mais saudável. Porque as pessoas a partir dos 25 anos que estão acessando o meu trabalho já têm muita coisa construída, tem que rolar um esforço para desconstruir essa série de coisas. Acho que quando a gente é mais novo, como isso de masturbação com as meninas, poderia evitar um monte de momentos terríveis na vida sexual delas. Por exemplo, elas entenderem que não tem nada de errado com elas se elas não gozarem com o cara, porque foi ele que não soube lidar com o corpo delas. Ou então saberem que não precisam de um cara para gozar, na real. Para desmitificar esse lance da penetração também. Que sexo tem que ter penetração, que para você se masturbar e gozar tem que ter penetração. Quando a gente começa a se relacionar sexualmente é quando a gente está mais vulnerável a ser violentada, e a violentar também. Seria muito importante essas pessoas mais novas entrarem em contato com minhas produções e outras produções, seria saudável.

Fórum – O que você acha de monogamia?

Lovelove6 – Hm… Acho difícil.

Fórum – É uma construção social? A gente deveria romper essas barreiras?

Lovelove6 – Total acho que é uma construção social. Mas é uma prática muito difícil, porque ao mesmo tempo em que a sociedade estimula que você seja monogâmica, existe uma pressão geral para que role traições. Tenho vários pés atrás com Relações Livres também. Recentemente li um texto sobre Relações Livres em que a pessoa tentou, mas não tem como se relacionar livremente se você não está discutindo machismo. É um questionamento que não estava sendo feito até então. Tenho muitos amigos que dizem praticar amor livre, mas na verdade o que acontece é uma grande irresponsabilidade com o outro. Você se exime da responsabilidade que você tem em fazer a pessoa ficar bem. Enfim, monogamia pode ser uma prisão para muitas pessoas. Para você ser monogâmico, poligâmico ou se relacionar livremente tem que ter responsabilidade e compromisso. Tem que estar especialmente em diálogo com seu parceiro o tempo inteiro, tem que compreender seus desejos. E aceitar, de repente, se você não consegue ficar com uma pessoa só mesmo, por mais que você tenha esse instinto de se apaixonar loucamente por alguém.

Você vai ter que começar a desconstruir certas coisas para se sentir mais confortável em suas relações.

Fórum – Qual sua referência feminina de liberdade sexual?

Lovelove6 – Simone de Beauvoir, talvez. Porque ela conseguiu manter essa relação com o [Jean-Paul] Sartre durante toda a vida. Mas não dá pra saber realmente o que passou entre os dois, as pessoas idealizam com toda certeza. Ela conseguiu ter relacionamentos com outras pessoas, enquanto ele também tinha, e isso funcionou muito bem. Não sei realmente se isso é referência de liberdade sexual feminina, como era o sexo deles, isso não dá pra saber. Não sei se ela se sentia triste, se ela engoliu alguma coisa e não falou. Não sei se ele era compreensivo e solidário o tempo inteiro.

por Isadora Otoni


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domingo, 30 de novembro de 2014

Quem ama, chupa.

Não precisa ligar no dia seguinte. Muito menos se oferecer pra pagar a conta. Não precisa tecer elogios inéditos. Nem abrir a porta do carro. Não precisa ser do tipo que manda mensagens de “bom dia”. Não precisa ter decorado todas as regras do novo acordo ortográfico. Nem saber fazer combinações satifatórias com suas peças de roupa. Não precisa amar o Bukowski. Nem o Chico. Ou o Caetano. Não precisa nem ter visto o meu top3 de séries indispénsaveis pra se viver. Não precisa preferir drama à ação. Nem gostar mais de Jameson que de Jack. Ou achar Beatles melhor que Stones. Tenho apenas uma condição. Só almejo uma peculiaridade. Minha única e mais urgente exigência é por um cara que goste de chupar. É isso mesmo que você leu: LAMBER-VAGINAS. Pode pendurar aí a plaquinha de “procura-se um amor que goste de chupar pepecas”.

Engana-se quem acha que esse meu pedido é singelo. Sim, homens adoram sexo oral. Mas só receber porque, na hora de oferecer, a coisa, ou melhor, os números mudam: uma pesquisa recente afirma que de um total de 1.252 homens heterossexuais, 78% recebe sexo oral frequentemente, mas quase a metade, 43% deles, não o pratica de volta. Ficou chocada? Pois ainda não terminou: dos caras que praticam, 1/3 tem nojo de fazer sexo oral na sua parceira. Ou seja, mesmo dentre os que fazem sexo oral, 35% diz que só o fazem porque têm “medo de ser considerado gay”, “medo de ser traído”, “porque tô com tesão e não penso na hora”, “porque amo minha parceira”, “para dar prazer a ela” e “para retribuir”. E isso me leva a uma terrível indagação. Caras que não chupam: onde vivem? De que se alimentam? Por que existem? De onde vem esse nojinho? Como lidar?

Acredito que essa atitude perante às nossas digníssimas vaginas só pode ter uma explicação: egoísmo ou nojinho. E sentir nojinho de buceta é misoginia. Não adianta vir me dizer que é uma questão de ~gosto ou que eu tô cagando regra porque esse é um assunto que atinge diretamente a vida sexual feminina. Há muitas mulheres que nunca tiveram um orgasmo na vida porque não conhecem o próprio corpo. E por que elas não se conhecem? Porque existem esse monte de estigmas sobre o órgão sexual feminino. A vagina sempre foi demonizada, somos ensinadas desde criança que ela é algo vergonhoso, o que leva muitas mulheres a sentir repúdio e nojo de si mesmas. A indústria pornô também pesa nessa realidade porque fortalece um modelo padrão de vaginas desprovídas de um único pelo. O cheiro, o gosto, a umidade, os pelos e a aparência da vagina são padronizados, plastificados, camuflados e adquirem a única função de satisfazer seu parceiro britadeira humana – e dificilmente ser saciada.

Resolvei adotar uma decisão bêbada para o resto da vida sóbria: NÃO CHUPADORES NÃO PASSARÃO! Quando tive esse lampejo de consciência, para provar meu compromisso com a causa, imediatamente deletei do whatsapp um PA que não cumpria o requisito. Até tinha cogitado continuar com o cara, mesmo com esse empecilho, afinal ele era gostosinho e mandava bem apesar dos pesares. Pensei em tratar na mesma moeda: já que você não me chupa, também não vou te chupar. Só que acontece que eu realmente gosto de cair de boca no que eu deveria retaliar. Cheguei à conclusão de que não seria justo. Não é legal pregar o revanchismo no sexo, porque o sexo representa justamente o avesso disso. Sexo é harmonia. É um momento em que não há separatismos, e sim comunhão de corpos. É chupar cada centímetro do corpo alheio e ser retribuído, é lamber cu, chupar buceta, levar tapa, levar dedada, dar tapa, gozar na cara, deixar ser gozado, amarrado, mordido, sentado, dominado. É sentir prazer em provocar prazer no outro. Sem censuras, sem inibições e sem nojinhos. Não rola dar pra quem tem nojo de uma parte minha tão importante.

Quem ama, chupa.

por  Laís Montagnana

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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Quase lá ...

Calhou de minha mãe se mudar justamente nesta época. Foi morar na praia. Fiquei livre no apartamento. Poderíamos ficar mais à vontade – ela disse que tinha vergonha de se trancar comigo no quarto com minha mãe por lá ...

Na primeira noite, a ansiedade era muita, mas segurei a bola, pra não forçar a barra. Armei o sofá-cama e ficamos lá, assistindo um filme – “Os Abutres têm fome”, com Clint Eastwood! Ou melhor:  TENTANDO! A mão boba estava a todo vapor, e as carícias rolavam soltas. Ela acariciando meu pau e eu finalmente sentindo sua bucetinha quentinha e molhadinha, com pelinhos bem aparadinhos, entre meus dedos. Num dado momento simplesmente desliguei a TV e puxei-a pra perto de mim, beijando e mordendo seus lábios com força. Tirei sua blusa e pude ver finalmente seus seios, pequenininhos, durinhos. Mamei com gosto, sugando e mordendo de leve os bicos. Ela fechava os olhos e mordia os lábios, acariciando meus cabelos.

Aí fui descendo por sua barriguinha, deliciosa. Acariciei os pelinhos que subiam pelo ventre e dei pequenas mordidas pelo seu corpo, enquanto desafivelava o cinto, descia o zíper e começava a tirar sua calça. A calcinha era branca e de algodão, com coraçõezinhos vermelhos estampados. Louco de tesão, aproximei meu rosto e senti o cheiro, delicioso, de sua bucetinha, nitidamente úmida. Dei uma pequena mordida, por sobre a calcinha mesmo, depois dei pequenas mordidinhas nas coxas, por dentro – ela soltou uns gemidinhos enlouquecedores – e, por fim, afastei a calcinha pro lado. Finalmente estava diante daquela parte da anatomia tão desejada e idolatrada, salve, salve! E era linda! Os pelinhos, muito bem aparados, deixavam à mostra um clitóris inchado e avantajado.O cheiro era delicioso, pra lá de afrodisíaco. Sentia meu pau duríssimo, a ponto de estourar dentro da cueca! Aproximei o nariz para sentir melhor, e finalmente passei a língua no clitóris. Ela gemeu e eu continuei, a princípio de leve e bem devagar, aumentando aos poucos o ritmo ...

Ela se contorcia e me chamava de gostoso, dizendo que aquilo era uma delícia. Segurei seu quadril pelas nádegas e elevei sua buceta até minha boca. Ela tremia e gemia. Aí coloquei-a de volta no colchão e tirei meu pau pra fora, duríssimo e “babadissimo”. Comecei a esfregá-lo em seu clitóris e ela fez uma cara assustada. Tranquilizei-a, dizendo que não ia meter, só queria sentir meu pau roçando na sua bucetinha. Ela deu um sorrisinho malicioso e relaxou, fechando os olhos e deixando a cabeça cair para trás. De vez em quando olhava para o meu pau e pra mim dizendo que estava delicioso. Aí parei “na portinha” e perguntei, olhando no fundo dos seus olhos: “tem certeza que não quer?”. “Hoje não”, ela responde. “Mas ta gostoso, continue”. Continuei. Até gozar. Um gozo forte, que inundou sua barriga de esperma. Ela sorriu. “Tão quente”, disse. “vou pegar papel pra limpar”. Fui. Quando voltei flagrei-a brincando com a porra dentro do umbigo. Limpei. Antes que levantasse de novo para jogar o papel fora, ela me puxa e me dá um beijo longo e apaixonado. “Te adoro”, ela diz.

Continua.

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terça-feira, 21 de outubro de 2014

interrogando Apollonia Saintclair

- Como, onde, quando e por quê.

   Eu não falo com gosto a respeito de mim mesma por diversas razões, sendo a mais importante a que eu penso que os meus desenhos são muito mais importantes neste contexto que a minha pessoa. Digamos que eu me pus a desenhar na intensidade atual porque em 2012 eu finalmente percebi que queria ir além do nível do simples rabisco. Eu tenho desenhado regularmente desde então, não apenas por ser fascinada pelos comics europeus, mas por ter perdido o impulso para me mover em uma velocidade mais alta. Eu descobri o Tumblr por acidente enquanto procurava por imagens de referência, e comecei a postar desenhos sem maiores expectativas. O resultado foi… espetacular. A resposta apaixonada de um público completamente inesperado me fez perceber de repente que, se eu investisse tempo suficiente e, especialmente, se eu fizesse as coisas do meu jeito, teria a oportunidade de adquirir conhecimento técnico o bastante – o que eu achava que nunca conseguiria – para poder criar um mundo coerente – um mundo que pertence a mim e que eu posso compartilhar com outros.

- Por que você faz o que faz?

    Essa é a pergunta de um milhão de dólares… Não tenho uma resposta simples para isso. Primeiro, eu desenho por prazer – seu e meu. Mas já que eu não poderia parar agora, mesmo que quisesse, eu acho que desenho por necessidade. Criar imagens é dar vida – uma existência independente de mim – aos personagens do meu palco interior. É uma experiência única ser capaz de colocar no papel aspectos muito privados e íntimos da minha vida mental, refiná-los e torná-los públicos, compartilhados e absorvidos por um público multifacetado. Talvez como uma misteriosa droga…

  Mas falando sério, eu acho que a minha principal motivação é de fato a maravilha da expressão gráfica. Desenhar como uma jornada de aprendizado, como uma viagem gráfica a um mundo paralelo. Quando tenho uma ideia para uma imagem, a questão principal geralmente é “Como eu faria/Eu consigo desenhar isso?” e então “O que eu estou retratando aqui?”. Eu não vou negar que desenho figuras bastante eróticas, mas quando estou trabalhando, minha principal excitação está nas maravilhas da expressão gráfica. Como é possível que o seu cérebro possa criar sentido a partir de um ponto, de linhas ou de objetos discrepantes que por si sós são elementos absolutamente abstratos e neutros? Segue sendo um mistério – e com a minha caneta eu me sinto um tipo de aprendiz de feiticeiro com sua varinha, surpreso com o que foi capaz de evocar.

 - O que você costuma ouvir a respeito do seu trabalho? Qual é a recepção do público?

   Como eu disse, eu era – e ainda sou – absolutamente admirada com o feedback desse público inesperado. Fico muito satisfeita em ouvir que a maioria dos seguidores – entre eles muitas mulheres – não tem dúvida alguma que o que eu faço é uma abordagem artística da sexualidade, e não apenas pornografia barata. Na verdade o número de reações negativas é tão mínimo – sem contar alguns poucos machos ou fanáticos sem muito senso de humor – que pode ser facilmente ignorado.

 - Quem são seus personagens, e de onde vieram?

As personagens femininas me interessam porque elas me permitem encenar a questão do 
poder de maneira ambígua. O termo ‘heroína’ me atrai porque a heroína é a definição própria de poder adquirido pela renúncia prévia de si mesma: sem sacrifício não há controle sobre o seu destino. Eu gosto de retratar mulheres fortes cuja nudez é a armadura que as faz invencíveis e cujo abandono é a alavanca que ergue o mundo.

    O feminino eterno é um tema integral da história da arte, mas infelizmente o Ocidente escolheu ignorar por quase 2000 anos a complexidade e a variedade de personagens femininas, incluindo suas emoções, seus desejos e suas demandas. Mas ainda pior, os homens também acabaram esquecendo que seu relacionamento e seu papel com relação às mulheres também poderia trilhar um número de configurações inesperadas, e que eles também precisavam libertar-se.

 - Qual é o seu processo, de criar a cena até publicá-la?

     Eu trabalho compulsivamente. Vejo algo, uma situação ou foto, e o meu cérebro coloca outra imagem junto, e eu tento captar isso e colocar no papel o mais cedo possível. Para chegar no rascunho final eu uso tudo o que estiver ao alcance. Eu experimento, coloco juntos uma colagem de fotos de referência, observações e imaginações. Às vezes isso dura apenas algumas horas, às vezes semanas ou meses para que se alcance algo que pareça certo. Uma vez feliz com a composição, passo para a “tinta”, que nunca dura mais que um dia, se possível sem interrupções para trabalhar em outra coisa. E uma vez que o desenho esteja terminado, se estiver bom o bastante, publico sem pensar duas vezes. Eu geralmente não estou inteiramente satisfeita, mas coloco na web de qualquer modo quando sinto que não conseguirei fazer melhor no momento. Esse é o meu jeito de ser e permanecer uma novata: nada está perfeito; todo desenho é um passo em direção à melhora.

- Materiais favoritos?

   Hoje eu trabalho principalmente em meio digital. Eu realmente gosto da versatilidade da “tinta seca”, e o trabalho digital tem a grande vantagem de produzir desenhos que estão prontos para a publicação. A passagem obrigatória pelo escaneamento é eliminada e a imagem visível online é (quase) absolutamente fiel ao original.

- Como a literatura, a música, as artes e os quadrinhos se relacionam com o seu trabalho?

     Minha maior inspiração vem provavelmente da literatura; eu nasci me alimentando de autores como Jorge Luis Borges, Guy de Maupassant, H.P.Lovercraft, Richard Matheson, Gustave Flaubert, Frank Herbert – e claro, Henry Miller e Anais Nin. Todas as minhas leituras deixaram em mim imagens latentes, apenas esperando para colidir com uma observação da vida real ou uma fotografia para se revelarem.

     Quando terminei uma imagem e tenho que encontrar um título definitivo, eu geralmente pesquiso um pouco para poder entender intelectualmente o que eu fiz inicialmente pela intuição e também para encontrar links temáticos que conectem meu desenho a um tema. E, surpreendentemente, eu quase sempre encontro um mundo escondido naquela primeira intuição. Em “The Bakuss" por exemplo, eu sabia, ao ter começado o trabalho, que o desenho era sobre Dioniso, mas não sabia ainda que esse jovem deus era parte de um mito recorrente na bacia Mediterrânea, conectando uma longa série de personagens “nascidos duas vezes” relacionados a diferentes religiões, incluindo o catolicismo romano. Então desenhar é para mim contar histórias – alguns diriam até mesmo que seja contar a História. Toda imagem que crio é a soma de várias fontes diferentes que eu sinto terem uma linha em comum.

- Fale um pouco mais sobre o religioso, o grotesco e o violento em suas imagens.

    Eu uso a religião e o grotesco como um alfabeto, como um bestiário profundamente enraizado no nosso subconsciente. Uma aranha ou a cabeça de uma vaca são mais que simples acessórios numa dramatização. Basicamente eu acho que a pessoa vê no desenho o que ela está preparada para ver. São arquétipos desenvolvidos ao longo da história da humanidade, totens que ativam sentimentos, associações e todo um mundo submerso, que é parte integral de nossa memória coletiva. Então, quando eu desenho temas religiosos, não é pra ser um comentário – positivo ou negativo – sobre sentimentos religiosos (que devem ser um assunto privado e individual). O que eu, sim, estou tentando despertar são as imagens escondidas que eles transportam. Pense novamente no “Bakuss”: ele se relaciona não só com a iconografia cristã, mas é também uma imagem recorrente, provavelmente tão antiga quanto a humanidade. Nós não podemos olhar imagens sem vê-las através de todas as imagens que já vimos antes. Quando eu vejo algumas fotos do Jim Morrison, por exemplo, não consigo evitar de pensar – conscientemente ou não – em um grande e festeiro Baco, pronto para morrer e renascer, como a primavera após o inverno.

       Eu considero meu trabalho como positivo ao sexo, e a maioria dos meus seguidores parecem sentir o mesmo. Meus desenhos podem parecer violentos, mas são sempre ambíguos com relação a quem está realmente no controle. A sexualidade não é um negócio inocente flower power lindo tudo joia. A sexualidade pode ser uma coisa violenta – mesmo durante o ato mais gentil. Porque o sexo é um jogo de poder. Porque o sexo tem a ver com a vida. E a vida é um teatro violento, uma luta onde todas as possibilidades estão em jogo. Eu queria que todo mundo pudesse aceitar que uma imagem nunca deve ser tomada em valor nominal. É um insulto à inteligência parar aí e desistir de tentar entender – ou pelo menos reconhecer – a complexidade inerente oculta, a complexidade mesma das nossas emoções e da própria vida.

- Existem projetos futuros a caminho?

  Tenho tido alguns projetos externos promissores aparecendo ultimamente, mas falarei deles quando forem publicados... Meu foco principal – meu mantra – segue o mesmo: desenhar e aprender. Aprender e desenhar.

- Maiores influências.

      Bom, minhas principais influências gráficas são óbvias: os mestres insuperáveis, Moebius e Milo Manara, o Leonardo e o Caravaggio dos comics. Mas a minha admiração vai muito além de suas maestrias técnicas: o que eu gosto particularmente sobre os dois é que eles têm uma combinação imbatível de total comprometimento com os seus trabalhos sem perderem em momento algum o humor, a habilidade de não se levarem tão a sério, e a capacidade intacta de nunca pararem de querer aprender e se renovar.

+ em http://apolloniasaintclair.tumblr.com/

por Vinicius F. Barth


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