sexta-feira, 23 de setembro de 2016

COM ESSE BATOM NÃO DÁ

Conhecem os buracos da rua todos, cada um deles, dançando com o carro para evitá-los à medida que avançam. Passam pela mesma rua vezes e mais vezes por noite, até se decidir. E é assim, à distância, que você já reconhece um acostumado ao bairro, cliente conhecedor da dinâmica. Gritam "delícia" alguns, meio mecanicamente (quem grita assim grita o mesmo pra todas, nada significa), outros ficam só encarando, a maioria passa sem reação, como se a rua fosse prateleira, como se nós objetos: não há necessidade alguma de, pelo olhar, indicar o que ele achou ou deixou de achar, quanto menos dizer o que quer que seja. E lá vou eu tentando atiçar suas curiosidades, suas vontades, um beijo lascivo aqui, um aceno ali, um "oi", "vem cá". E é isso.

Pois pararam três pra saber o preço, me conhecer melhor, antes do primeiro cliente da noite. Um veio perguntando se eu metia forte, arrombava o edi dele, tadinha de mim... condição zero de garantir ereção, ainda mais quando o cara não coopera (me tratar como gente é fundamental, e não como um pinto sobre pernas). Nada feito. Ele sentiu que não era a minha e eu não desmenti. No sexo prefiro sempre que nada dependa da minha ereção, ou pode ser que não role nada. Os outros foram bem xis, só perguntando quanto, interagindo pouco e "vou dar uma voltinha, qualquer coisa eu volto". Os caras aprenderem a nos tratar como gente e não coisa, qual a dificuldade? Incrível o quanto conseguem abalar sua autoestima mesmo quando você está super bem.

Mas veio o bendito primeiro e acabou que único. Parou a motoca, conversou comigo em cima dela mesmo, eu sedutora, voz sexy, brincando com a mão na sua virilha enquanto jogava o velho blablablá, ele se animando todo. "Quanto é o oral?" Faço vinte pra você, só pra você. "Hmmm... mas onde?" Ah, qualquer lugar... mas se você for tímido tem o estacionamento lá embaixo, mais escurinho, ou o matel. "Vai o estacionamento então, mas e esse batom? A esposa me mata se eu chegar em casa com a cueca suja!" Se tem coisa que me irrita é isso. O cara tem esposa em casa, esperando, a travesti servindo só pra uma rapidinha paga com trocados. Mas tirei o batom mesmo assim, na mão, ele vendo, e lá fomos nós.
Foi de moto na frente, sozinho, mas pagou adiantado pra me convencer que era sério. Eu fui a pé, duas quadras. Quando cheguei, já estava lá. Me explicou que tem uma com quem sempre sai, mulher, não travesti, só que ela não tava na rua, aí ele aproveitou pra uma variada. O papo tava bom, mas tempo é dinheiro e lá vai o zíper, jeans abaixado só até a metade da perna, pra não sujar no chão de terra e camisinha usada. Necão bonito, gorducho, dava até gosto imaginar na boca, mas não, taca-lhe guanto desde o começo, com a boca mesmo, únca forma de pôr quando ainda está murcho. Começa o oral, ele em pé, eu agachada no salto, cãimbras e mais cãimbras, o pau dele no máximo meia-bomba, o meu sem dar sinal de vida.

Uma hora endurece, ele se anima, pergunta quanto a mais pro completo, "mais dez", lá vem dez a mais pro meu bolso. Fico de pé, ufa, gelzinho na neca e no edi, ele se encaixando por trás, me inclinando sobre a moto, começando a forçar a portinha tentando entrar. Nada. Tou meio machucada, a verdade é essa, sem conseguir resolver a questão (ainda escrevo mais a respeito). A coisa é que, de tanto insistir, uma hora a ereção já não tão vigorosa assim foi por terra e não houve cristo que a reerguesse. Ele me pede então pra tirar o guanto e eu bater uma pra ele. Fico meio assim, era a última camisinha que eu tinha (esqueci a bolsa com uma amiga), avisei que não teria mais como penetrar depois, ele ok, só queria gozar com uma punhetinha minha.

Mãos à obra, de cara ele solta o famigerado "faz o que quiser de mim, me toca onde você quiser". Quem me lê, já sabe o que significa, onde ele me quer tocando. Sim, edi, cu, justo onde eu vou chegando ali por baixo, pelo períneo, "faz o que você quiser", meia-bomba virando pedra, "sou todo seu", até que ele goza. Não foi tão rápido assim, no entanto, eu tendo que trocar de mão por cansaço, ele assumindo o trabalho no final, eu só tendo que massagear seu cuzinho. Ele chegou ainda a pedir que eu enfiasse o dedo, mas tá boa que vou pôr meu dedinho lá: contente-se com as beiradas, querido. E vê se paga um drive-in a próxima, porque transar em pé ninguém merece.

por Amara Moira

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terça-feira, 17 de maio de 2016

O XIBIU DE MARIA

Eu era tão pequenininho! A fimose bicuda tornava dolorosa qualquer manipulação, quanto mais a ensaiada punheta que eu tentara imitar, ao ver os meninos maiores gozar com gala e tudo ao final do banho, nus nas águas morenas do Rio Vaza Barris, em Itaporanga.

Pratiquei, pratiquei, até que alcancei a instigante coceirinha da gozada infantil, o que me habilitou a contar aventuras mentirosas á turma dos meninos grandes que já sabiam gozar.

Introduzir a pinta num xibiu seria o próximo passo. Pois bem, um dia cheguei aos limites do quintal para meter no complacente buraco macio de uma bananeira e quando olhei para a cerca vizinha lá estava Maria, a empregada da família ao lado, arreganhado o xibiu numa fresta da cerca e a me chamar aflita.

Um xibiu tem nuances de cor que vão do roxo molhado ao branco fúnebre. Lá dentro, cada dobra pulsa como um coração do lado de fora. A tabaca aberta era-me uma coisa nunca vista, curiosa e instigante. Exalava aquele cheiro de rêgo de cozinha, ancestral e embriagador, um que de pimenta em ovas de siri, algo que me assaltava as narinas e se resolvia lá ermbaixo no pinto entumescido. O tônus do sexo que ainda hoje eu tento reavivar nas carnes que cheiro e que se tornou a chave da minha lubricidade.

Um xibiu arreganhado na cerca, tão poderoso que me engoliu todo e me mordeu lá dentro, me arregaçou o prepúcio, ardeu o quando quis, tirou e botou inúmeras vezes até que Maria enfiou em si os próprios dedos e enlouqueceu aos gritos e convulsões.

Essa Maria se debatendo ao gozar no quintal da vizinha é um dos mistérios que me intrigam, desde a infância.

 Amaral Cavalcante

quarta-feira, 11 de março de 2015

Meia hora ...

"Meia hora de pica no seu cu". "Oxe, e eu pensando que você ia me desejar uma coisa ruim". O diálogo, meigo, foi sussurrado em tom de brincadeira por duas amigas no final de um show na Casa Rua da Cultura. Não as conhecia, nunca mais as vi, mas isso nunca me saiu da cabeça ...

Achei EXTREMAMENTE excitante.

pornofagia

Clóvis Basílio dos Santos, hoje com 60 anos, não guarda boas lembranças de sua infância na Baixada Santista. “Duas ou três vezes por semana, o pau comia pra cima de mim”, disse quando nos encontramos numa noite chuvosa do começo de fevereiro, no interior de São Paulo. Aos 17 anos ele fugiu das surras do pai e foi morar com o avô. Ficou lá por três meses, até juntar algum dinheiro.

Técnico em metalurgia pelo Senai, seguir uma faculdade não estava em seu horizonte, tampouco servir o Exército – “Um amigo da família conseguiu minha dispensa, coisa rara na época”. Em 1973, arranjou um emprego numa loja que consertava escapamentos. O serviço ficava perto do cais de Santos, na rua Brás Cubas. Na carteira, o rapaz ganhava um salário mínimo. Alguns clientes lhe davam caixinha, o que aumentava o orçamento. Em outras ocasiões, ele fazia o que chama de “pequenos trambiques”: “Chegava algum bacana com algum problema fácil de resolver, e eu dizia: ‘O silencioso tá fodido.’ Aí eu guardava o silencioso, e depois vendia a um preço mais barato para um cliente mais humilde. E nisso eu também faturava algum.”

A loja de escapamentos era só um dentre os muitos outros estabelecimentos da rua, que incluíam prostíbulos. “A zona do cais de Santos é a maior zona do país”, comentou, com certo orgulho e talvez alguma hipérbole. No final do expediente, quase toda noite ele perambulava pelo bairro. Na primeira vez que tentou transar com uma prostituta, ela recusou. E mesmo assim lhe cobrou uma taxa. Na segunda vez aconteceu algo parecido: a prostituta chegou a masturbá-lo, mas não passou daí. Ele pagou de novo. “Eu era muito inocente”, ele diz. Com 18 anos e uma graninha no bolso, quis conhecer as casas de tolerância. Então foi à pensão Brás Cubas. Pagou pelo quarto e deu o dinheiro para a prostituta antecipadamente. Aquela noite conseguiu, enfim, transar. Logo depois começou a namorar a moça.

Quando conversamos, Basílio dos Santos, que é negro e tem as feições arredondadas e simétricas, a ponto de parecer um retrato falado, vestia regata azul e bermuda verde fosforescente. O único indício de sua idade eram escassos fios brancos que tentavam nascer na cabeça raspada, visíveis apenas de perto.

Ele falava animado, pondo e tirando os óculos escuros de aviador. Descreveu a transa com intensidade, alguma variedade semântica e muita repetição – “Eu era putão. Putão, putão, putão, putão, putão” –, como se quisesse atingir o grau zero da obscenidade. A ênfase que dava a suas digressões sexuais tornava sua história pessoal opaca e cronologicamente confusa. Basílio dos Santos passou um bom tempo falando da “prostituta enorme” que foi sua namorada por seis meses.

Só muito mais tarde – após discorrer sobre a carreira de metalúrgico e fresador ferramenteiro em São Paulo, sobre as orgias que organizava com amigos no fim dos anos 70 e sobre as noites que passava assistindo a pornochanchadas depois do expediente – ele esclareceu em que momento foi “batizado” com o apelido pelo qual é conhecido. Em 1990, quando atuava em seu primeiro filme pornográfico, no Rio de Janeiro, o produtor que o havia contratado não estava satisfeito com o nome Clóvis, que considerava muito banal. Ao ver a genitália do ator – a razão da resistência das prostitutas do cais de Santos –, decretou: “A partir de agora você se chama Kid Bengala.”



Era uma manhã nublada de fevereiro, e o carro serpenteava a estradinha bucólica em algum trecho impreciso nas cercanias de Carapicuíba, em São Paulo. Árvores e mansões pontuavam o trajeto. “Quando eu crescer quero morar numa casa dessas”, disse Cindy, e todos riram. No banco de trás, além dela, acomodavam-se os atores Lolah e Loupan, e Carla Lira, a maquiadora – todos contratados pela produtora Brasileirinhas, mencionados aqui por seus nomes artísticos. O destino era uma casa num condomínio fechado da região, onde seria gravado um filme com temática carnavalesca. No trajeto, Cindy contou que naquela tarde faria sua primeira cena de sexo anal. Decidira encará-la com Lolah e Loupan porque tinha confiança no casal. “Me sinto segura com eles, temos amizade”, resumiu, sorridente.

Ao volante, o diretor Gil Bendazon, um paulistano da Mooca, ruivo, de olhos claros e barba quase translúcida, explicava como certa vez levou bolo de um fã. A Brasileirinhas havia feito uma promoção: sorteariam um cliente para atuar numa filmagem. Avisaram o vencedor, que, animado ao telefone, combinou hora e lugar para o encontro. Bendazon e outros funcionários da produtora foram buscá-lo no metrô. O rapaz jamais apareceu.

Os fãs são chamados de “punheteiros”. Ao longo das semanas em que nos encontramos, ouvi o termo muitas vezes: de Bendazon (nome artístico), de Sérgio, o fotógrafo da equipe, de Clayton Nunes, o CEO da Brasileirinhas. Longe de ser depreciativo, o apelido carrega certo afeto. “Punheteiros” são os clientes fiéis, aqueles que sustentam a empresa. Representam o oposto dos chamados “sazonais”, aqueles que assistem a filmes pornôs para ver celebridades menores, reanimar o casamento ou satisfazer a curiosidade. Enquanto subíamos a estradinha rumo à casa, Bendazon contava o caso do fã sorteado com ar de desolação. A produtora quisera presentear um de seus fiéis e não havia dado certo.

Quando chegamos à mansão, discreta e um pouco decadente, havia um clima de confraternização na cozinha. Dênis Nunes, administrador do espaço e irmão de Clayton Nunes, e Marcelo Ferreira, seu auxiliar, cumprimentaram todos com abraços e beijos. Haviam preparado um café da manhã farto: vários pacotes de pão de forma, duas térmicas de café, leite, suco, fatias de presunto e queijo. Após a refeição, todos se dispersaram pelos cômodos, preparando-se para a filmagem.

As casas que funcionam como locação de filmes pornográficos não duram muito – dois ou três anos, se tanto. Segundo Bendazon, passado um tempo, vizinhos reclamam, ou alguns curiosos dão um jeito de espiar, gerando inibição entre os atores. Na casa atual, alugada três semanas antes da filmagem, eles construíram uma extensão no muro para evitar que os moradores da região pudessem bisbilhotar. O local passava por uma reforma extensa e necessária: o gesso das paredes era frágil e decadente; a tinta estava gasta. Três anos antes, a produtora alugara uma casa isolada na Praia Grande, no litoral paulista. A mansão de Carapicuíba era o novo set.



O lugar não serve apenas como locação. A cada semana a produtora envia uma atriz para morar na casa temporariamente. Os assinantes do site da Brasileirinhas têm acesso a todos os cômodos através de sete canais, supostamente 24 horas por dia. Depois de um mês, uma eleição entre os assinantes determina qual atriz deve voltar ao ambiente. O programa é um pastiche dos reality shows. A própria casa parece uma versão um pouco mais sombria, mais caída, e também mais autêntica das que são vistas em programas como o Big Brother Brasil. O apresentador da Casa das Brasileirinhas é Kid Bengala – “O nosso Pedro Bilau”, conforme diz às gargalhadas Clayton Nunes, o CEO, orgulhoso do trocadilho.

Como em outros programas do tipo, o real não é exatamente real. Existe, por exemplo, um cronograma para as atrizes. Marcelo Ferreira, o Black, é o encarregado de monitorar os horários. Existem tempos mínimos, geralmente entre quarenta minutos e uma hora, para cada atividade obrigatória: piscina, academia, banho. Em certo momento a atriz deve se livrar da roupa. Os assinantes podem conversar com as moradoras temporárias pela internet em horários predeterminados. Ferreira acompanha os chats, bloqueando mensagens ofensivas e pedidos de contato pessoal. “Muitas atrizes trabalham também na noite”, ele me disse, “e acusações de agenciamento de prostituição são complicadas.”

Apesar do apelido, Black é um moreno claro, magro e de cavanhaque ralinho. Além de controlar os cronogramas do reality pornô, ele ajuda nas filmagens, nos ensaios fotográficos, na iluminação. “Pego gel, camisinha, faço de tudo.” Também organiza refeições, supervisiona a reforma da casa e cuida dos computadores. Frequentemente se ouve um grito, dos fundos ou de dentro da casa: “Ô Black!” Foi um dos poucos a não se importar com a publicação de seu nome verdadeiro na reportagem: “Tranquilo, bota aí.”

Nascido e criado em Santos, Ferreira montou móveis para as Casas Bahia por dez anos, na condição de terceirizado. Após a fusão da empresa com o Grupo Pão de Açúcar, deixou o emprego. “Ficou muito ruim para os funcionários, o salário caiu demais.” Começou então a fazer bicos. Uma de suas ocupações temporárias foi como porteiro de uma casa de swing, onde conheceu pessoas do meio pornográfico. “Caí um pouco de paraquedas aqui, mas aprendo muito rápido”, disse, enquanto fumava um cigarro no fundo da casa. No futuro, pretende se matricular num curso de foto e filmagem, não necessariamente no ramo pornográfico. “Quero fazer casamento, funeral, o que for”, comentou, rindo.

Lolah e Cindy estavam sendo maquiadas num dos cômodos do andar de cima. No chão do quarto jaziam colares, pulseiras e outras bijuterias. As atrizes vestiam fantasias minúsculas de Carnaval que continham inúmeras pedrinhas brilhantes, e pareciam mais bronzeadas do que horas antes. Cindy experimentava as roupas sem embaraço. Lolah, mais quieta, não se mostrava desconfortável com minhas perguntas, às quais respondia com uma reserva gentil. Morena, de grandes olhos pretos, ela disse que só contracena com o seu namorado, Loupan. Quando perguntei sua idade, respondeu: “Tô com 23, bem velhinha já.” Ela ficaria na mansão aquela semana inteira, participando da Casa das Brasileirinhas. Não parecia muito empolgada.



Mineira de Santos Dumont, Cindy contava que assistia a filmes pornôs aos 12 ou 13 anos. “Eu adorava. Sempre soube que me envolveria com esse tipo de coisa”, comentou, mostrando animação. Não soava falsa, ainda que atrizes pornográficas sejam encorajadas a propagar mitos desse tipo. É difícil, nesse meio, diferenciar o que é genuíno do que é inventado. Com o tempo e as distorções da memória, é provável que meias verdades ou fantasias ganhem aura de verdade plena.

Cindy enveredou para a área protagonizando filmes envolvendo fetiches em produtoras menores. Logo se destacou e foi chamada para integrar a equipe da Brasileirinhas. Um dos fetiches mais bizarros que encenou no começo da carreira consistia em chutar os testículos do parceiro. Kid Bengala certa vez a desafiou a reproduzir a cena com ele. Cindy gargalhava ao rememorar a história (“Ele aguentou o tranco”), enquanto a maquiadora Carla Lira pedia num tom de voz impaciente que ficasse parada. “Essa fala pelos cotovelos”, contou.

Carla, uma paraibana simpática de 41 anos, conserva um resquício de sotaque, a despeito de morar em São Paulo há 25 anos. Ela começou a prestar seus serviços para o meio pornô em 2004, ano que muitos consideram como o marco inicial do crescimento da indústria. Por muito tempo se importavam filmes do exterior, e pouco se produzia aqui. No fim dos anos 90, produtoras nacionais começaram a crescer. A Brasileirinhas foi fundada em 1996, mas seu auge, e o auge do pornô nacional, segundo todos os entrevistados, foi entre 2004 e 2009. A partir de 2010, afetado pela pirataria na internet e pelo aumento da popularidade de sites de compartilhamento de vídeos pornôs – como YouPorn, XVideos e Pornhub, que disponibilizam conteúdo de graça –, o mercado nacional começou a enfrentar sérios problemas.

Testemunha dos reveses na indústria, Carla encara seu trabalho com estoicismo. Apesar de a demanda ter caído, ela diz que cobra o mesmo cachê – entre 200 e 300 reais a sessão – e ainda tem certa estabilidade financeira. Não há sinal de nostalgia em sua fala quando relembra os tempos gloriosos do pornô. “As produtoras são todas meio parecidas, tinha uma época em que eu saía de uma e já ia para outra, e nem sabia o nome de onde eu estava, de tão igual que era tudo.”

Os anos de carreira lhe proporcionam certo regard lointain, uma vantagem de espectadora externa. Observou, por exemplo, que a decadência do gênero tem gerado uma espécie de autofagia. Por questões de sobrevivência e ego, o ator quer produzir, dirigir, atuar e assim por diante, num círculo que nem sempre fecha redondo. Segundo ela, há hoje menos atenção a detalhes, opera-se mais na base do improviso.

Carla sente saudade das putas. “Puta de verdade”, assim como “punheteiro”, é elogio, e não xingamento – as inversões linguísticas são recorrentes no meio. As “putas” são as atrizes profissionais, que chegam prontas para o trabalho, não hesitam, fazem tudo que se exige de uma cena. “As menininhas”, Carla disse, “ficam perguntando: ‘Mas será que eu tenho que fazer isso, será que eu tenho que fazer aquilo?’ Elas dão palpite na maquiagem, ficam com frescura para encarar o trabalho. Essas eu chamo de ‘putas de quatro paredes’. É outra coisa, viu, não são profissionais. As putas de verdade para mim são as divas. Mônica Mattos, Ju Pantera, Bruna Ferraz.”

Cindy, que ouvia, atalhou em tom sério, já maquiada: “As profissionais se poupam, não vão para a balada na noite anterior.” Não havia dúvida: ela se considerava um exemplo da categoria.



A sede da Brasileirinhas fica num edifício acinzentado, de fachada sóbria, ao lado da Praça da República, no Centro em São Paulo. A produtora ocupa apenas um dos andares. O escritório é simples, com duas salas interligadas por um cômodo maior, onde funcionários silenciosos sentam-se lado a lado. Os empregados estão conectados a sites pornográficos, mas agem como se estivessem abrindo planilhas de Excel ou PowerPoint, morosos e distraídos, o que gera no visitante um efeito desconcertante.

O CEO da firma, Clayton Nunes, iniciou sua trajetória profissional na área de informática. Nascido e criado no bairro do Tatuapé, na Zona Leste paulistana, se uniu aos 20 e poucos anos a alguns amigos para lançar uma revista de tecnologia. “Começou assim, coisa de nerd mesmo”, disse ele em sua sala. Simpático, dado a gestos efusivos, respondeu bem alto, quase gritando, quando lhe perguntei em que se formara: “Fiz administração... administração na São Luís!” – e gargalhou, como se caçoasse da discrepância entre sua ocupação e o curso.

Empolgados com as possibilidades da tecnologia audiovisual, e com a intenção de reportar inovações do meio na revista que almejavam criar, Nunes e seus sócios alugavam fitas em VHS para passar o conteúdo para DVD. Os filmes eram em grande parte pornôs. “No fim do expediente, funcionários vinham pedir cópias emprestadas, sempre discretamente. Percebi que havia uma demanda imensa por DVDs pornôs, talvez até por ser uma mídia mais maneira que o VHS, aquele trambolho que ninguém quer ser visto carregando.”

Nunes teve uma outra ideia. Começou a contatar várias produtoras de pornô, dizendo que lançaria uma “revista de sacanagem”: “Pedia dez minutos de conteúdo, e em troca dava duas páginas de anúncio. Fizemos uma compilação com as melhores cenas de vários filmes. Tinha de tudo: fetiche de pé, dupla penetração, pornô mais tradicional. Na primeira edição, vendemos 60 mil cópias com o DVD encartado.”

Nunes queria vender mais compilações em bancas de jornal. Começou a juntar capital e a comprar conteúdo. A Brasileirinhas era, então, comandada por Luis Alvarenga, um empresário que sempre resistia às investidas de Nunes. “A Brasileirinhas chegou a vender DVD por 60, 70 reais. Eu queria massificar, vender mais barato, a 10, 15 reais na banca, pegar um público com menor poder aquisitivo”, disse ele. Alvarenga, que Nunes define como um pornógrafo da velha escola – “tinha cadeirinha de diretor, cinegrafista e tudo mais” –, estava satisfeito com o modelo de negócios, focado em locadoras.

A expansão da rede de locadoras Blockbuster criou uma pressão mercadológica que obrigou a produtora a repensar seu modelo de distribuição. A rede americana – que viria a enfrentar suas próprias dificuldades, em decorrência do crescimento do mercado de streaming digital – entrara no país em 1995. Fundada no Texas, em 1985, a empresa sempre projetara uma imagem associada a valores familiares, e por isso não trabalhava com vídeos pornôs. Sua presença no Brasil forçou a quebra de várias locadoras locais, até então importantes meios de distribuição para as produtoras pornográficas nacionais. Em 2006, cinco anos após suas primeiras tentativas, Nunes conseguiu licença para a distribuição de filmes das Brasileirinhas em bancas de jornal. Em 2007, ele entrou como sócio da produtora e foi gradativamente assumindo o comando total da empresa. Em 2010, Alvarenga se desligou da produtora.

O mercado estava aquecido em 2007. Os cachês eram altos, lançavam-se DVDs, as produtoras investiam. Cerca de 100 filmes eram produzidos ao ano, e a maior parte da receita provinha da venda de DVDs. Aumentava a reputação da Brasileirinhas como uma das produtoras mais renomadas do mundo, competindo numa área que era historicamente dominada por empresas americanas e europeias.

Mesmo em posição economicamente favorável, Nunes já sentia que o tempo das vacas gordas iria para o brejo. Lembrou-se de uma conversa que tivera com o sócio, assim que entrara na produtora: “Não são só as locadoras que vão sofrer. O DVD em banca de jornal também vai acabar, você vai ver”, dissera ao outro.

Clayton Nunes cedo percebeu que precisaria cortar custos. A pirataria na internet estava a todo vapor: mal era lançado, um filme já estava disponível de graça. No Brasil, o acesso à internet mais rápida ainda estava se consolidando, e foi só a partir de 2010 que o mercado pornô nacional começou a sentir os efeitos mais nefastos da decadência que já ia avançada nos Estados Unidos. O mercado pornô nacional mal se erguia e já começava a declinar.

Nunes passou a investir num site oficial da produtora, convertendo todo o acervo para o formato digital. Com o tempo operou outras mudanças. Além de estabelecer uma equipe regular para as filmagens, contratou como diretor principal Gil Bendazon, que até então
só trabalhara com produtoras do exterior. O diretor tinha carta branca para filmar regularmente, escalar atores e atrizes, editar os filmes como bem entendesse.

Em 2007, o site da Brasileirinhas contava com cerca de 14 mil assinantes. Em 2012, a internet já representava 50% do faturamento da empresa. O problema é que a migração não foi, nem tem sido, proporcional. O faturamento da venda de filmes representa menos de um quarto do que era há cinco anos. E, se em 2007 a produtora jorrava por volta de 100 filmes por ano, no começo de 2013 esse número já havia caído para aproximadamente trinta títulos. Hoje, lança-se uma média de um filme por mês.



Renata, a segunda namorada de Clóvis Basílio dos Santos, também era prostituta. Ele continuou no ramo dos escapamentos por alguns meses, até que decidiu pedir demissão e mudar de cidade. Em 1974, arrumou serviço como torneiro mecânico em Sumaré, ao lado de Campinas, no interior paulista. Fazia eixos de caminhão para uma multinacional americana. Juntou algum dinheiro nesse emprego. Com o que sobrava do salário, viajava para São Paulo nos fins de semana. Desembarcava na cidade logo depois do almoço e passava o dia em salas de cinema, vendo pornochanchadas. Então perambulava por zonas de prostituição. Às vezes tomava um ônibus para Santos. “Eu chegava dez, dez e meia da noite na Baixada Santista, e ia direto para a zona do cais.”

A metalurgia, setor em que Basílio dos Santos trabalhava, esteve no centro das mudanças políticas dos anos 70. Foi das greves do ABC paulista, no final da década, que Luiz Inácio Lula da Silva despontou nacionalmente. Quando perguntei a Kid Bengala sobre esse período, e mais especificamente sobre a ditadura, ele não pareceu muito interessado, e até se confundiu sobre quem estava no poder. Para ele, a década de 70 foi “a época das pornochanchadas”. O ano de 1982 foi quando o “HIV começou a pegar mais”. E 1990, “o período pré-Viagra”.

Após trabalhar um tempo em Sumaré, Basílio dos Santos foi promovido a fresador ferramenteiro. Seu salário dobrou e ele se mudou para São Paulo. Na capital fez novas amizades, e em 1976 passou a organizar orgias. “Eu convencia os amigos, fazia festinhas. Não era nada pago ou profissional.” Viveu bem por alguns anos. Na passagem para a década de 80, contudo, em meio a uma crise econômica que assolaria o país por vários anos, ele perdeu o emprego.

Foi um período difícil. “Entrei para a construção civil, fui trabalhar de pedreiro”, lembrou. Havia uma ironia melancólica na situação. Seu pai, com quem tivera sérios atritos na infância e na adolescência, também havia sido pedreiro. No fim dos anos 80, com as finanças mais estáveis, ele voltou a organizar festas. Conheceu “casais liberais” da elite que também se interessavam por sexo grupal. Entre os novos amigos, havia um homem famoso de tevê – “Não vou citar o nome dele, já está velhinho”. Tinha um fetiche voyeurístico: gostava de ver negros transando com loiras. Arregimentava mulheres dispostas a satisfazer essa vontade, e depois ligava para Basílio dos Santos. Certa vez, um agenciador de prostitutas levou a própria mulher para transar com Santos, enquanto o adepto famoso do fetichismo assistia à cena. Assim como as prostitutas do cais santista, o agenciador se impressionou com Bengala. Deixou-lhe um cartão.

Passou quase um ano até que Basílio dos Santos decidiu contatar o agenciador, que lhe apresentou ao dono de uma revista. Foi ao Rio fazer um ensaio fotográfico e lá conheceu um produtor de cinema, Carlo Mossy. Brasileiro nascido em Tel-Aviv, que fizera fama na época das pornochanchadas, foi Mossy quem lhe deu o apelido fálico que adotaria para sempre.



Em seu ensaio célebre, mas estranhamente moralista, “Big red son”, o escritor americano David Foster Wallace caçoa da vulgaridade do festival Adult Video News, AVN, em Las Vegas, que todo ano escolhe os melhores da indústria pornográfica americana. Gil Bendazon se orgulha dos prêmios que recebeu. Antes de ser contratado pela Brasileirinhas, trabalhou com produtoras americanas, como Elegant Angel e Combat Zone, e se refere a esse mercado e seus diretores como o padrão-ouro, o máximo do pornô. John Stagliano é seu François Truffaut. “Ele visitou minha casa”, disse Bendazon na sede da produtora, sussurrando, como se revelasse um segredo.

Stagliano é considerado um dos mais inovadores diretores da história do pornô. Até o fim dos anos 80, os filmes em geral aspiravam a uma estética hollywoodiana. Tinham enredos, atuações e trilha sonora na hora do sexo. Inventor do pornô gonzo – nome que faz referência ao jornalismo gonzo, de Hunter S. Thompson –, Stagliano procedeu a uma revolução na indústria.[1] Seus filmes, lançados no início da década de 90, dispensavam enredo, trilha sonora ou produção. Em seus primeiros vídeos, ele e Rocco Siffredi, um ator pornográfico italiano que viria a se tornar famoso, flanavam pelas ruas. Abordavam mulheres e as convidavam para a cama. Sem enredo, sem firulas. Quase sempre eram atrizes contratadas, mas o objetivo era criar uma atmosfera prosaica, de encontro acidental. Às vezes, Stagliano se inseria na cena – filmava enquanto transava e fazia comentários para a câmera. O pornô gonzo se espalhou. Filmes como os de Stagliano eram baratos de fazer, e a demanda por esse tipo de pornografia, a julgar pelo sucesso de vendas, estava reprimida. A indústria adotou o estilo.

Bendazon é entusiasta do gonzo. “O punheteiro”, disse de modo enfático, “não quer saber de historinha, de narrativa.” Assim como Kid Bengala, os clientes fiéis – os que alimentam as caixas de e-mail da Brasileirinhas – estão mais interessados nas minúcias da transa em si. Bendazon defende o enfoque no ato, mas não participa das cenas – como dirige vídeos institucionais e comerciais de tevê, costuma cobrir a cabeça com um capuz nos sets pornográficos para preservar sua identidade.

Uma das razões que determinaram a contratação de Bendazon foi sua eficiência. Segundo Nunes, “o Gil não precisa de cinegrafista, de iluminação, de auxiliar para isso, para aquilo. É ele e mais uma pessoa no set. E só”. O apreço do empresário não se restringe ao aspecto econômico. Pelo estilo minimalista, Bendazon tem o que Nunes chama, um pouco eufemisticamente, de “ganho de privacidade nas cenas”. Os atores e atrizes se soltam mais, ficam menos inibidos. A atmosfera do real – o éthos do pornô gonzo – fica mais palpável. Há também certa admiração pessoal: “Quando descobri que tinha um brasileiro ganhando AVNs, fiquei animado, quis trazê-lo”, Nunes disse.



Bruna Ferraz, uma das estrelas do meio, participou do momento áureo do pornô nacional. Chegou a fechar um pacote de dezoito cenas com a Brasileirinhas por quase 200 mil reais. “Ganhei uma bolada na época”, contou quando nos encontramos na entrada de seu prédio, na rua Oscar Freire, em São Paulo. Bruna, que adotou o sobrenome de uma atriz da Globo que admira, vestia uma blusa de renda branca decotada e calça colada. A maquiagem, em tom verde-escuro, estava particularmente concentrada ao redor dos olhos, conferindo-lhe um quê das mulheres retratadas por Toulouse-Lautrec.

Nascida em Alegrete, uma cidadezinha gaúcha perto da fronteira com a Argentina, Bruna foi adotada por uma mulher católica e criada num ambiente conservador. Quando menina ia sempre à missa. Continua religiosa, mas suas crenças atuais são um amálgama de candomblé, misticismo (“Todos temos anjos da guarda”) e monoteísmo (“Ele é o mais importante, acima de tudo”). Às vezes a atriz escuta vozes. “Sempre femininas”, disse. “Elas me dão instruções: faça isso, não faça aquilo.”

Aos 18 anos Bruna saiu de Alegrete e se mudou para Porto Alegre. Pouco depois foi para Foz do Iguaçu e começou a dançar em boates. Aos 24 anos, incentivada por uma amiga, foi para São Paulo, onde se destacou como dançarina e logo começou a receber convites para eventos de revistas. Mas o que suscitou o interesse da indústria pornográfica foi sua presença em vídeos da internet – como já era bastante conhecida, pôde negociar um bom cachê.

Ela foi contratada numa época em que certas celebridades começavam a se aventurar no ramo. Um deles foi o ator Alexandre Frota, que deixou lembranças ambíguas de sua passagem pela Brasileirinhas. “Até a chegada dele, o pornô era totalmente marginalizado, um estigma que vinha desde a época da boca do lixo, das pornochanchadas”, comentou Nunes, e completou: “Frota desmistificou isso.” No entanto, o ator e outros que, como ele – Rita Cadillac, Gretchen, Mateus Carrieri –, rodaram filmes esporádicos só atraíram clientes sazonais. Os fãs assíduos da produtora, os “punheteiros” que sustentam a empresa, não gostam de celebridades. “Frequentemente mandam e-mails reclamando, ou então comentam em fóruns – ‘Pô, e aquela cena risível de Alexandre Frota, o pior ator pornô do mundo?’”, disse Nunes.

Bendazon também é cético em relação ao potencial dos famosos no mundo pornô. “Não dão ângulo, dificultam a vida.” Ele não considera Frota e outros como “atores pornôs de raiz”. Quando perguntei quem seria esse tipo de ator, tanto ele quanto Nunes foram categóricos: Kid Bengala.

Bruna ainda atua, mas ultimamente tem se concentrado mais na carreira de stripper e dançarina. Na última vez que filmou, contou ter fechado um pacote de três cenas por “algo em torno de 10 mil reais”, muito menos do que conseguia outrora. Ainda assim, seu cachê é maior que o de outras atrizes. A maioria dos entrevistados estimou ganhar, por cena, entre 200 reais – de produtoras menores, independentes, que burlam requisitos legais e nem pedem identificação aos participantes – e 1 500 reais – de produtoras renomadas e estabelecidas. Ninguém quis declarar exatamente quanto ganha.



Se, por um lado, a revolução gonzo libertou a pornografia do pastiche, da imitação de segunda mão de Hollywood, ela também facilitou a cultura do “Faça você mesmo”, lema do empreendedorismo. O pornô amador, filmado por pessoas em suas casas ou lugares públicos, é hoje responsável por uma fatia significativa do consumo.

Nunes não acredita que a produção amadora seja a pá de cal das produtoras. “São nichos. O cara que vê filme amador em geral só gosta de filme amador. Muitas vezes o que o atrai é o fato de que aquilo foi filmado sem consentimento, por exemplo. Não é o que a gente faz. A Brasileirinhas é conhecida pelos filmes bem-feitos, acho que nem se quiséssemos conseguiríamos mudar essa imagem.” O problema maior, na avaliação de Nunes e Bendazon, são a pirataria na internet e os sites que disponibilizam conteúdo ilegalmente, de graça. É um problema insolúvel, impossível de monitorar. O mercado para DVDs pornográficos está a ponto de se extinguir. “Hoje você lança um DVD para mostrar que está vivo. Virou operação de marketing. Não dá lucro nenhum”, falou Nunes.

No dia da filmagem, no carro, quando já voltávamos a São Paulo, Bendazon contou que dentro de seis meses a Brasileirinhas provavelmente não lançaria mais DVDs para venda; o acervo será apenas digital. Do banco de trás, Loupan, que acabara de atuar aquela tarde, se assustou: “É sério?”

Paulistano do bairro de Santa Cecília, moreno, baixo e forte, Loupan, de 31 anos, sempre começa as frases como se estivesse a ponto de fazer uma revelação (“Posso te falar uma coisa?”, “A verdade é a seguinte”), e conclui com uma piscadela de olho, satisfeito. Ainda menor de idade, ouviu de uma de suas primeiras namoradas a sugestão de trabalhar como ator pornográfico. Dois dias depois de completar 18 anos, fez um teste. Foi aprovado e nunca mais parou de atuar. Orgulhoso da profissão, ele com frequência menciona os bens conquistados com seu trabalho – carro, casa própria (“Comprei meu primeiro apartamento aos 21 anos”) e, mais recentemente, um curso de inglês. (Naquela tarde, um pouco antes das filmagens, Lolah o chamou para estudarem juntos.)

Loupan não esconde a raiva dos piratas: “Dá vontade de entrar no computador e espancar esses caras”, disse-me, deitado numa cadeira ao lado da piscina, com os olhos semicerrados e uma expressão serena que contrastava com suas frases incisivas. “Não gosto muito de jornalista”, disse a certa altura, calmo, sem traço de agressividade. Ele não vê na pirataria um problema sistêmico. É uma questão de caráter: “Tem muito espertalhão no mundo.” Apesar de criticar os que pirateiam, e tacitamente admitir o declínio da indústria, Loupan não acredita que sofra ou venha a sofrer as consequências da queda. “Quem é bom é bom, não tem concorrência.” É uma atitude comum no meio. O declínio é aceito em termos abstratos, mas nunca de maneira individual, concreta. A regra geral é válida, mas todos se consideram exceções.

Sérgio, o fotógrafo da equipe, paulistano filho de japoneses, de 56 anos, é um que não se esquiva de admitir a decadência. Preserva a identidade por razões financeiras. “Antes a gente sustentava a família com o pornô, mas agora, que já não dá tanto dinheiro, não é legal se expor.” Como atua em outras áreas – sobretudo fotos para jornais e anúncios de joias –, prefere manter o anonimato. De estatura média, camisa polo, óculos de grau e um ar tranquilo, só uma tatuagem na parte interna do antebraço destoa de seu aspecto circunspecto. A tatuagem traz o sobrenome de sua família, grafado em japonês.

Para Sérgio, o declínio da fotografia antecedeu o do pornô. “O trabalho do fotógrafo profissional ficou muito difícil. Você mesmo poderia ter tirado uma foto para essa matéria com seu telefone, não é?” Por já ter experimentado uma turbulência, ele parece ter uma visão mais abrangente do assunto. Evitando a atitude negacionista com que muitos tentam se defender de um futuro sombrio, Sérgio enxerga a decadência da indústria dentro de um contexto maior – é apenas mais uma das áreas que têm sofrido com o advento das novas mídias. “Como o jornalismo, né?”, disse, com um sorriso cúmplice.



Em Experiência, seu livro de memórias, o escritor britânico Martin Amis discorre sobre a dificuldade de escrever bem sobre sexo. O problema consistiria no fato de cada ser humano ter preferências muito específicas nesse âmbito, e daí ser complicado extrair de uma experiência concreta, individual, a universalidade necessária à literatura: o oxigênio da empatia. Diante de um sem-número de opções narrativas, recorremos a clichês.

A premissa de Amis é perceptível em filmes pornográficos. Ainda que diferentes uns dos outros, todos eles têm um componente ritualístico e previsível. As interlocuções são sempre as mesmas (“Vai, vai!”, “Que bom!”, “Caralho!”), bem como a apresentação, regida por padrões e modas (genitália depilada, maquiagem densa).

Bendazon me prometera acesso à cena que iria filmar, frisando, porém, que eu não deveria permanecer dentro do cômodo, para não constranger os participantes. O aparente paradoxo se resolveu. No dia da filmagem, postado do lado de fora da casa, eu poderia espiar por entre uma cortina de bambu que resguardava o set.

Não assisti mais do que uns poucos minutos, incomodado por assumir aquele papel de voyeur. A filmagem ocorria no mesmo quarto que, horas antes, quando chegamos para o café da manhã, parecia escuro e melancólico, com colares carnavalescos espalhados pelo chão. Gil Bendazon, encapuzado, segurava a câmera; Black se concentrava no laptop, sem capuz; Cindy movia-se sobre Loupan, que estava deitado num sofá; Lola revezava seus esforços entre os dois. A cena, genérica e similar a tantas outras, o reflexo do vidro e o isolamento acústico me davam a impressão de estar vendo um filme através de uma tela.

Tarde da noite, terminada a filmagem, todos foram recolher suas coisas para voltar a São Paulo. Na sala sobrou apenas Kid Bengala, que havia interrompido a entrevista comigo para gravar a apresentação da Casa das Brasileirinhas. Retomamos a conversa. Largado no sofá, sem camisa, as câmeras desligadas mas ainda apontando em sua direção, Bengala voltou a falar de si.

Após rodar seu primeiro filme pornográfico, em 1990, no Rio de Janeiro, o ator ficou apenas alguns meses na cidade. Fez mais dois filmes, “para aprender a lidar com as câmeras”, e esperando ser chamado para atuar no exterior. Ouvira que profissionais como ele ganhavam muito dinheiro na Europa e nos Estados Unidos. (Anos depois descobriria que os atores de fora não eram tão bem remunerados: “Essa história é balela. O que se ganha aqui ganha-se lá, a diferença é pouca.”) De todo modo, como na época ainda não existia uma indústria nacional de pornografia, Bengala retornou a São Paulo. Seguiu sua vida como fresador ferramenteiro e retomou as orgias com amigos.

Um desses amigos, Sandro Lima, viria a se tornar cinegrafista da Brasileirinhas. Quando o mercado cresceu, por volta de 2003, 2004, ele convidou Bengala a voltar à ativa. A princípio, o ator não acreditou que a proposta pudesse cobrir seu salário na fábrica – lembrava que em 1990 o mercado não pagava bem. Ofereceram muito mais. Já na casa dos 50 anos, ele assinou um contrato de dois anos e logo passou a ser um dos atores mais importantes da pornografia nacional, a ponto de ser disputado pela concorrência.

Contou que há poucos anos a Falotex, empresa que produz extensores penianos, investiu na criação de uma réplica de seu pênis. A Adão e Eva Toys, uma outra empresa, recentemente fez uma oferta para expandir em escala nacional a distribuição do artefato. Bengala ganha royalties sobre cada unidade vendida. Quando perguntei se o declínio da indústria poderia afetá-lo de alguma forma, ele foi enfático, passando do uso da primeira para a terceira pessoa: “A queda do pornô nunca alterou minha vida, em nada. Porque o Kid Bengala é um ícone.”

Estimulado pela notoriedade alcançada, em 2008 o ator decidiu candidatar-se a vereador pelo PPS (Partido Popular Socialista). Fez campanha em prostíbulos, cabarés, boates. Abordou camelôs que vendiam seus DVDs na rua 25 de Março. Conseguiu menos que mil votos. Afetado pela derrota, teve o que define como uma “semidepressão”. Passou um tempo na Europa, filmando em Hanover, na Alemanha, e em Salzburgo, na Áustria, mas não se adaptou. “Fiz uma doideira”, disse, referindo-se à eleição. “Candidato de primeira viagem sempre acha que vai ganhar.” No ano passado, no entanto, voltou a se candidatar, desta vez a deputado estadual pelo PTB. Com pouco mais de mil votos, foi novamente derrotado.

Ele desacelerou o ritmo da fala ao comentar os reveses. Mas o desânimo durou pouco. Alguns instantes depois, Bengala já estava falante e efusivo novamente. Enquanto discorria sobre a sua vida em São Paulo e a ascensão ao estrelato pornô, interrompeu o raciocínio, como se tivesse esquecido de dizer algo importante. Parecia o prelúdio de mais uma digressão sexual, talvez uma lembrança do cais de Santos e das suas primeiras namoradas. Mas, sorrindo, ele apenas arregalou os olhos e perguntou na minha direção: “Ô, jornalista, você já viu o tamanho dele?”


por Alejandro Chacoff




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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Sexo é poder

Gabriela Masson, ou Lovelove6, como é conhecida na internet, não queria ser fotografada. Ela achava que seus olhos estavam inchados porque havia terminado a noite anterior em lágrimas, após uma discussão sobre feminismo. Suas publicações, aliás, abordam temáticas feministas. Lovelove6 quer quebrar tabus entre suas leitoras, mas, apesar de dominar a sexualidade feminina em seus desenhos, falar sobre sexo ainda não é tão fácil. Em alguns momentos, Masson deu risadas nervosas e precisou de pausas para falar o que pretendia.

A autora da história em quadrinhos Garota Siririca, das zines A Ética do Tesão na Pós-Modernidade I e II e de tirinhas do Batata Frita Murcha estava em São Paulo para a segunda edição da Feira Plana, que aconteceu no Museu da Imagem e do Som. Gabriela, que tem 24 anos, montou a banca Femizine com colegas da Zine XXX, grupo de mulheres jovens desenhistas.

Ela cursa licenciatura de Artes Plásticas na Universidade de Brasília (UnB) e pretende morar em São Paulo. Porém, o sucesso de suas publicações na internet ainda não foi revertido em dinheiro suficiente para a mudança. A artista confessou que tem medo de ter que “se vender”. “Já pensou se a Capricho me chama para um trabalho? Vou fazer arte para o inimigo em troca de dinheiro”, brincou.

Gabriela contou à Fórum porque assina como Lovelove6. Aos 15 anos, enquanto acessava um site de pornografia, uma publicidade mostrou a mensagem: “Lovelove6 quer conversar com você”. Claro que ela não acreditou, mas gostou do apelido.

Fórum – Você desenha para o Batata Frita Murcha, faz a Garota Siririca e tem dois volumes do zine A Ética do Tesão na Pós-Modernidade. Qual desses faz mais sucesso?

Gabriela Masson (Lovelove6) – Bom, acho que os três são bem sucedidos. O Batata Frita circula bastante pelo Facebook, gera uns likes e tem bastante popularidade. Mas é bem abstrato esse lance de likes. O “Ética” já tem um alcance mais real. Eu lancei o primeiro volume em março do ano passado, na Feira Plana I, e desde então acho que já fiz umas 700 cópias e vendi tudo. A segunda edição também está vendendo bastante. A Garota Siririca tem um alcance especialmente entre os quadrinistas, apesar de que muita gente conhece. O Batata Frita Murcha, menos.

Fórum – Para muita mulher, é difícil confessar esses interesses em masturbação e sexo. E então vem a Garota Siririca. Para você, ainda é difícil falar sobre sexualidade ou com a Garota Siririca você rompeu obstáculos?

Lovelove6 – Falo sobre sexualidade, mas me preservo. Não gosto de falar sobre a minha prática sexual individual, porque acho que não vem ao caso. Mas rola uma necessidade de haver algumas abordagens. Faço quadrinhos sobre sexualidade e voltado para mulheres. Ao longo do meu crescimento, o que reparei é que, por exemplo, eu não me masturbava até os meus 20 anos. E minhas amigas também não. A maior parte das meninas que conheço diz que não curte masturbar, mas adora sexo. Então comecei a reparar que era um pouco contraditório isso, sabe? E depois que eu passei a (pausa)… Me masturbar…

Fórum – Meio difícil falar sobre isso, né?

Lovelove6 – Não sei, foi isso que me motivou a fazer a Garota Siririca. Depois que comecei a sacar como funcionava um orgasmo, com uns 20 anos, comecei a perceber que a maioria das minhas amigas nunca tinha gozado. E que a maioria das mulheres também não. Passei por maus momentos de chegar a pensar que eu era a mulher frígida. Alguns homens já vieram falar mal de mim por causa disso. Amigos faziam fofoca, falavam que eu era estranha. Reparei que era um problema meu, porque não me compreendia muito bem, como meu corpo funcionava. E também era um problema deles e dessa sociedade no geral porque é um “tabuzão” mesmo falar de siririca. Senti a necessidade de fazer a Garota Siririca para compartilhar e tornar isso um assunto mais natural, para a gente conversar sobre isso melhor. Porque os homens estão se masturbando desde os oito anos de idade, e as mulheres não. Isso faz toda a diferença.

Fórum – Você falou em uma entrevista que a Garota Siririca te ajudou na ruptura dos limites do espaço restrito em que a sociedade quer fazer caber sua experiência feminina. Você acha que também está ajudando outras mulheres? Está vendo resultado?

Lovelove6 – Eu estou, na verdade. Não sei exatamente que reflexo a Garota Siririca tem na prática das pessoas, não sei se realmente mais meninas passaram a se masturbar, a se conhecer e a conversar sobre isso com as amigas. Mas, no meu círculo social, tenho falado mais sobre isso com as minhas amigas e, pra fazer a Garota Siririca, preciso fazer pesquisas. Então, além de conversar, preciso praticar também para saber o que acontece, para ter mais ideias. Tenho descoberto uns tópicos que não são falados quando a gente fala de siririca. Por exemplo, tive uma conversa com uma amiga que teve o primeiro orgasmo dela recentemente. E ela veio me falar que não gostava de se masturbar porque não conseguia chegar ao orgasmo, só chegou através da penetração. Comecei a falar: “Cara, talvez a respiração… Se você respirar mais rápido ou, de repente, mais devagar. Se você tentar contrair os músculos”. E a gente se deu conta de que isso não são dicas que as pessoas dão uma para a outra. A gente acha que é só um estímulo direto e cabuloso ali, super rápido e que vai acontecer. E na verdade, não.

Fórum – Você acha que falta poder para as mulheres? Tanto em relação ao próprio corpo, quanto ao espaço público?

Lovelove6 – Total. Acho que a gente vive em uma situação de extremo cerceamento do próprio corpo. Como se a gente não tivesse liberdade mesmo sobre o próprio corpo. Isso se reflete de maneiras bem objetivas tipo violência e hostilidade na rua, coisa que a mulher sofre por uma questão banal como os pelos. Se a “mina” não depila a perna, se não depila o sovaco, está sujeita a apanhar na rua. E isso acontece, na verdade. As pessoas vão hostilizá-la, ela pode apanhar na rua. É fato. As meninas que cortam o cabelo curto e têm uma aparência mais “sapata”, por exemplo, quando sofrem violência é um exemplo de total falta de liberdade sobre o corpo. Muitas vezes nem depende da orientação sexual da menina realmente, porque ninguém sabe só olhando para a pessoa. Presumem uma série de coisas a respeito por causa de um visual que uma mulher não deveria ter.

Acontece esse tipo de violência, de hostilidade, de marginalização. Acho muito sério. Os pentelhos são a coisa mais visível, mas isso se estende até a prática sexual dela. Por isso não conhecemos o nosso corpo e também não querem que a gente conheça. Tem um movimento contrário, para que a gente reconheça o nosso corpo como sujo, vergonhoso e nojento. A sociedade no geral acha o nosso corpo bem nojento. Por isso fazem essas pressões para depilações extremas e constantes, e sabonetes íntimos com cheirinho de margarida. Isso é bem sério. Se você reflete, não só como as mulheres, mas como lidam no geral com o corpo das mulheres. Quando o homem está transando com uma mulher e se recusa a fazer um oral porque sente nojo. E as pessoas falam que sentem nojo e que não curtem como se fosse muito natural. É extremamente bizarro, na verdade.

Fórum – Então, sexo combina com política?

Lovelove6 – Total. Sexo é política. Tem tudo a ver.

Fórum – Você acha que falta liberdade sexual no geral ou é só no meio feminino?

Lovelove6 – Eu reconheço que existem problemas em relação aos homens também. Tem partes do corpo dos homens que são tabus. Por exemplo, a menina lambe o mamilo do cara e ele fica “travadão” porque isso é “meio gay”. Acho que os caras estão bem oprimidos na verdade. Mas como estão numa posição de dominância em relação às mulheres, não sei se não percebem, se não se importam, ou se não faz falta, mas acho que eles também aproveitam muito pouco do seu próprio corpo.

Fórum – Como você acha que a mídia erótica e pornográfica pode ajudar a reverter esse quadro?

Lovelove6 – Isso é bem complicado. Porque pornografia tem um reflexo muito sério. A maneira como a indústria pornográfica produz é muito cruel e perigosa. A verdade é que, como não tem educação sexual nas escolas e como isso é tabu dentro da família, a gente acaba aprendendo sexo através da pornografia. E a gente acessa a pornografia mais comercial e hegemônica possível. Indústria pornográfica é um problema a ser discutido. Reconheço que faço coisas que podem ser pornográficas, mas acho que não dá pra falar da indústria se a gente não se atentar aos objetivos com o qual essa pornografia é feita, e que ideologia ela está veiculando. Também não sou contra, na verdade. Consumo pornografia, consumo algumas bem hegemônicas, do tipo conflitante pra mim. Consumo coisas que não têm nada a ver com minhas práticas. Tesão é algo muito difícil de se politizar completamente, e acho que não é algo absolutamente controlável. Mas entendo que tenha alguns reflexos na prática. Consumo pornografia, mas a pornografia que eu faço tem outra abordagem, porque tenho consciência para não deixar a pornografia que consumo se refletir da maneira que os produtores querem que ela se reflita na minha prática. Tenho que entender que isso é um produto, entender quais mensagens estão veiculando.

Fórum – Fora a indústria, queria saber mais sobre a mídia. Revista de mulher nua, revista sobre sexo, blog sobre sexo. Você acha que eles deveriam ter abordagem política ou podem ser puramente eróticos ou pornográficos?

Lovelove6 – Não, acho que não tem essa de puramente pornográfico ou puramente erótico. Você está sempre veiculando alguma ideia. E essas ideias de sexo são especificamente machistas, ou feministas. Porque em revista de mulher pelada as “minas” estão lá todas magras e depiladas. Os caras estão cheios de Photoshop. Tem esse lance de transformar completamente o corpo da mulher. E então os caras estão achando que na cama vão encontrar isso, e vão agir que nem o cara que eles viram no vídeo. E as meninas vão se sentir um lixo na hora que tirarem a roupa, porque elas não são essa mulher da capa. Acho tudo muito prejudicial, mas não pela coisa em si, acho que é prejudicial pela falta de informação, pela formação política a que as pessoas não têm acesso. Esse lance de não associar pornografia com política não existe. Está extremamente associado, até porque é pelo sexo que as mulheres são dominadas. Essa é a grande desculpa para a gente ser dominada. Através do casamento, através do estupro. Sexo é uma estratégia política. A maneira como você pratica ele é uma estratégia.

Fórum – O que você acha de objetificação sexual? Caso seja a mulher ou o homem que se objetifica, é aceitável?

Lovelove6 – Não acho que é errado ter fetiche sadomasoquista, essas coisas. Na hora que estamos praticando isso, temos que ter consciência de que a gente está numa sociedade que entende a mulher como submissa. Então, por exemplo, na cama com meu parceiro eu quero ter um lance de submissão, onde sou submissa. Mas quero que meu parceiro saiba que isso é um lance só na cama, que na nossa relação cotidiana ele não pode fazer isso comigo, e que isso não significa que sou uma pessoa submissa. Isso não pode ter um reflexo além.

Fórum – Mas você acha essa prática saudável?

Lovelove6 – Talvez seja, não sei (Risos). Tipo assim, não sou sexóloga. Estou falando sobre sexo, mas não tenho uma formação de psicologia. É saudável dar prazer para as pessoas, se elas se sentem felizes. Isso não pode ser feito de maneira acrítica, você tem que estar questionando o tempo inteiro. Sempre me questiono nas posições em que me coloco, sempre converso com meus parceiros e parceiras sobre esses lances. Para que o que a gente faz na cama seja compreendido como jogo de sexo, e não algo que vá me definir.

Fórum – O movimento LGBT ainda tem muita dificuldade de compreender a questão bi e as pessoas trans, no geral. O que você acha disso?

Lovelove6 – Estou um pouco afastada dos movimentos LGBTT, na verdade.

Fórum – Você é mais ligada ao feminismo?

Lovelove6 – Sim. E meu feminismo é inclusivo, na verdade. Quero praticar um feminismo que seja solidário às mulheres negras, às pessoas trans e às lésbicas. O que está acontecendo no movimento LGBTT é o questionamento em relação à dominância dos homens gays. Muitos desses homens gays são misóginos, machistas, e não contemplam as pautas lésbicas e as pautas trans. Dentro do feminismo também existe esse problema. O feminismo radical entra muito em conflito com a questão das transexuais. É realmente difícil, é meio complicado. Esqueci a pergunta, desculpa, repete pra mim?

Fórum – Se você realmente acha que o movimento LGBT tem dificuldades de compreender as pautas das pessoas trans e bis.

Lovelove6 – É, tem, na verdade. Mas acho que é melhor não falar isso (risos).

Fórum – Por que? Pode falar.

Lovelove6 – De uns anos para cá, a gente tenta explorar mais a questão trans. Conhecer e entender as pessoas trans. E só recentemente que as pessoas trans começaram a ter um pouquinho mais de liberdade para viver como querem viver. Acho que um movimento só não pode contemplar todos esses corpos que são muito distintos, sabe? O movimento unificado LGBTT. Porque uma pessoa trans não é exatamente uma pessoa gay. Entendo que o movimento LGBTT tenha sido muito importante nos anos 80 e 90, mas talvez agora realmente precise haver algumas distinções, umas separações. Não no sentido de cortar o diálogo, mas para que esses grupos específicos possam se fortalecer sobre isso. Até porque tem muitas pautas em comum, mas tem muitas pautas muito específicas também.

Fórum – Entendi. Então talvez as pessoas trans podem se encaixar com os não-binários.

Lovelove6 – Ainda tem essa questão queer. Tem pessoas que não querem ser reconhecidas nem como homens, nem como mulheres. E isso não tem nada a ver com a orientação sexual dessas pessoas. Precisa haver grupos que possam discutir essas questões específicas. Ao mesmo tempo, precisam desse diálogo constante porque são minorias e precisam fazer número para conseguir ter uma expressividade nas práticas da sociedade. Acho muito genérico e abstrato o movimento LGBTT, mas reconheço que precisa existir enquanto não houver uma solução. Acho muito complicado falar sobre isso porque não sou trans, não sou lésbica, e atualmente estou me relacionando com um homem. Vivo os privilégios de uma menina hétero. Poucas vezes consigo me relacionar mais profundamente com uma mulher. Então não sei realmente como é estar inserida nesse movimento LGBTT. O que falo é do contato que tenho por ser bissexual e pelo o que vejo das minhas amigas lésbicas e trans falando sobre o movimento LGBTT.

Fórum – Você acha que as críticas de que o movimento feminista é muito conservador são válidas? Ou são “male tears”? Em relação às trans, a piadas e ao sadomasoquismo.

Lovelove6 – Não acho que são válidas, mas também não acho que são male tears. O movimento feminista é muito mal compreendido em geral, até por muitas meninas que se dizem feministas. O movimento é muito plural. Existem várias vertentes de feminismo, ele não é uma cartilha. Não existe uma bíblia, como existe a bíblia do comunismo. E acho que todas têm abordagens muito válidas, na verdade. Feministas radicais, transfeministas, feministas negras… E elas divergem muito entre si. Na verdade, esse é um ponto forte do feminismo. A gente está sempre se questionando e tem sempre um diálogo forte entre as feministas. Por mais que tenha conflitos e embates teóricos fortes, esse movimento está sempre se renovando… Por exemplo, um dia foi só feminismo radical, depois o movimento lésbico, aí veio o transfeminismo, e então as feministas negras começaram a falar que esse feminismo não as contemplava… Acho isso importante. Acho que as pessoas têm uma visão muito estereotipada do que é feminismo. Ou é essa menina que não gosta de nada, não tem senso de humor, que odeia tudo, odeia todos os homens. Ou é essa mina que tem que ser muito livre, muito louca. Tenho essa impressão. E na verdade não, falar de pornografia dentro do feminismo é polêmico para as próprias feministas, e isso é uma construção constante que as feministas fazem entre elas. Existem as que são a favor e as que são contra. Existem as que fazem pornografia feminista, e aí existem as que odeiam essa pornografia feminista porque ela ainda é pornografia.

Acho uma grande merda o lance das piadas. Acho que não deve ser feito mesmo, com nenhum tipo de corpo. São pessoas muito medíocres que fazem esse tipo de piada. Estou esperando as pessoas começarem a fazer piada sobre os homens brancos, que a gente não vê nenhuma.

Enfim, acho que as pessoas precisam estudar feminismo. E isso não é ficar no Facebook, em uma discussão interminável sobre pentelho ou sobre Miley Cyrus. Estudar feminismo é você trazer os teóricos feministas e saber de onde é que está surgindo essa ideia. E ir atrás de estudar sobre colonialismo, racismo também. Porque feminismo não é só uma questão específica de mulher trabalhar, ou de mulher conseguir um espaço específico. Não é só sobre estupro. Tem muitas questões que precisam ser contempladas para se ter uma visão mais universal, mas ao mesmo tempo específicas das pautas feministas. E você precisa se posicionar. Entro em conflito porque me identifico muito com abordagens radicais, ao mesmo tempo não quero excluir pessoas trans e quero me solidarizar com as companheiras negras. Então não sei, é difícil mesmo. São vertentes distintas que eu simpatizo. Não é um problema para as feministas, mas você está constantemente se autoquestionando e se desconstruindo para se construir de outra forma. E as pessoas não têm essa compreensão, acham que você é feminista como se fosse comunista. Como se já tivesse a cartilha estereotipada.

Fórum –Você foi bem aceita na cultura das zines?

Lovelove6 – Fui porque estou em um espaço muito privilegiado em Brasília. Dentro do meu curso existe uma mentalidade mais libertária, um pouco mais politizada, simpática ao feminismo. Tantos os homens quanto as mulheres do meu curso, a maioria, reconhecem a necessidade de discutir essas coisas. E são conversas comuns que a gente tem. Então comecei a fazer zines entre pessoas que também desenhavam, que faziam zines comigo. Também existiam outros grupos como a Revista Samba, que abriram o ateliê para a gente, que faziam o contato direto, que eram nossos amigos. Fui acolhida e incentivada a fazer. Rolavam pressões para que eu começasse a fazer quadrinhos quando ainda estava meio incerta sobre o que fazer.

Fórum – Então tem uma cena feminista forte na cultura das zines?

Lovelove6 – Não tem, na verdade. Existe muita zine política, muita zine feminista sim. Mas a maioria… Ai, não sei, espera. É que estou pensando em quadrinhos especificamente. O próprio suporte da zine parte da cultura punk, do “faça você mesma”. Então, meio que as garotas já se empoderam desse veículo. Existem mesmo no Brasil muitas zines feministas, uma cena meio forte. Mas vai depender muito do conteúdo da zine. No meu pequeno núcleo de quadrinhos, abordagens feministas não são muitas, na verdade.

Fórum – Li que teve um episódio de machismo em alguma feira que você participou. Tem muito machismo nesse meio de quadrinista, desenhista, cartunista?

Lovelove6 – Tem. A galera fala que não tem, mas tem sim. Na hora do “vamos ver”, acontece uma série de episódios meio tristes. Esse que aconteceu foi no FIQ [Festival Internacional de Quadrinhos], em Belo Horizonte, e um produtor de quadrinhos estava lá representando um grupo. Ele fotografou a virilha de uma cosplayer que estava vestida da super-heroína Estelar, a mutante. Depois, fotografou a bunda de outra menina e postou na internet fazendo chacota, ridicularizando-a. Rolou esse episódio e estava acontecendo o movimento da zine XXX nesse momento, em que eu estava encontrando muitas mulheres interessadas em fazer quadrinhos na internet, e isso revoltou a gente. Porque essas coisas acontecem, e rola uma pequena repressão do tipo: ‘Cara, é muito feio isso que você fez, apaga essas fotos’. Aí o cara apaga e está tudo bem. Não está tudo bem, sacou? Isso é crime, na verdade. Se a menina quisesse, ela poderia processar o cara. E isso é tratado levianamente por todo mundo, porque ninguém quer entrar em conflito, todo mundo quer ficar amigo de todo mundo. Manter uma boa vizinhança. E enquanto isso tem pessoas que estão sendo oprimidas.

Fórum – Qual o perfil dos seus leitores, pelo contato com as redes sociais?

Lovelove6 – Não sei, não dá pra definir. Não sei nem se a maioria é de mulheres ou homens, isso acho legal. Talvez seja bem próxima a quantidade de mulheres e de homens que curtem meus trabalhos. Não faço ideia da formação política dessas pessoas, muitas vezes essas me adicionam no Facebook porque viram um desenho meu e gostaram. Aí vou dar uma olhada no mural da pessoa e tem coisas absurdas, racistas e homofóbicas. Fico: ‘Gente, como é contraditório’. Não sei o que entendeu, não dá pra saber. Não sei a idade também.

Queria muito que minhas coisas fossem acessadas por pessoas mais novas, a partir de uns 13 anos. Talvez antes, mas acho que seria polêmico. As pessoas começam a se entender como seres sexuais a partir dos sete anos. Em Salvador, por exemplo, tenho amigos que perderam a virgindade com seis, sete anos. Que tiveram relação sexual antes da masturbação, talvez. Então, acho que tem que ser um assunto com o qual as crianças e pré-adolescentes entrem em contato. Não acho que tem que ser restringido esse tipo de acesso, porque acabam acessando internet e veem o pior tipo de pornografia. Queria que minhas coisas fossem lidas por pessoas mais novas mesmo, de ensino fundamental, ensino médio. De uns 13 aos 18 anos.

Ainda não consegui acessar esse público, o que não sei como fazer, mas acho que seria importante, é especialmente aí que minhas coisas podem ter um reflexo mais direto e mais saudável. Porque as pessoas a partir dos 25 anos que estão acessando o meu trabalho já têm muita coisa construída, tem que rolar um esforço para desconstruir essa série de coisas. Acho que quando a gente é mais novo, como isso de masturbação com as meninas, poderia evitar um monte de momentos terríveis na vida sexual delas. Por exemplo, elas entenderem que não tem nada de errado com elas se elas não gozarem com o cara, porque foi ele que não soube lidar com o corpo delas. Ou então saberem que não precisam de um cara para gozar, na real. Para desmitificar esse lance da penetração também. Que sexo tem que ter penetração, que para você se masturbar e gozar tem que ter penetração. Quando a gente começa a se relacionar sexualmente é quando a gente está mais vulnerável a ser violentada, e a violentar também. Seria muito importante essas pessoas mais novas entrarem em contato com minhas produções e outras produções, seria saudável.

Fórum – O que você acha de monogamia?

Lovelove6 – Hm… Acho difícil.

Fórum – É uma construção social? A gente deveria romper essas barreiras?

Lovelove6 – Total acho que é uma construção social. Mas é uma prática muito difícil, porque ao mesmo tempo em que a sociedade estimula que você seja monogâmica, existe uma pressão geral para que role traições. Tenho vários pés atrás com Relações Livres também. Recentemente li um texto sobre Relações Livres em que a pessoa tentou, mas não tem como se relacionar livremente se você não está discutindo machismo. É um questionamento que não estava sendo feito até então. Tenho muitos amigos que dizem praticar amor livre, mas na verdade o que acontece é uma grande irresponsabilidade com o outro. Você se exime da responsabilidade que você tem em fazer a pessoa ficar bem. Enfim, monogamia pode ser uma prisão para muitas pessoas. Para você ser monogâmico, poligâmico ou se relacionar livremente tem que ter responsabilidade e compromisso. Tem que estar especialmente em diálogo com seu parceiro o tempo inteiro, tem que compreender seus desejos. E aceitar, de repente, se você não consegue ficar com uma pessoa só mesmo, por mais que você tenha esse instinto de se apaixonar loucamente por alguém.

Você vai ter que começar a desconstruir certas coisas para se sentir mais confortável em suas relações.

Fórum – Qual sua referência feminina de liberdade sexual?

Lovelove6 – Simone de Beauvoir, talvez. Porque ela conseguiu manter essa relação com o [Jean-Paul] Sartre durante toda a vida. Mas não dá pra saber realmente o que passou entre os dois, as pessoas idealizam com toda certeza. Ela conseguiu ter relacionamentos com outras pessoas, enquanto ele também tinha, e isso funcionou muito bem. Não sei realmente se isso é referência de liberdade sexual feminina, como era o sexo deles, isso não dá pra saber. Não sei se ela se sentia triste, se ela engoliu alguma coisa e não falou. Não sei se ele era compreensivo e solidário o tempo inteiro.

por Isadora Otoni


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domingo, 30 de novembro de 2014

Quem ama, chupa.

Não precisa ligar no dia seguinte. Muito menos se oferecer pra pagar a conta. Não precisa tecer elogios inéditos. Nem abrir a porta do carro. Não precisa ser do tipo que manda mensagens de “bom dia”. Não precisa ter decorado todas as regras do novo acordo ortográfico. Nem saber fazer combinações satifatórias com suas peças de roupa. Não precisa amar o Bukowski. Nem o Chico. Ou o Caetano. Não precisa nem ter visto o meu top3 de séries indispénsaveis pra se viver. Não precisa preferir drama à ação. Nem gostar mais de Jameson que de Jack. Ou achar Beatles melhor que Stones. Tenho apenas uma condição. Só almejo uma peculiaridade. Minha única e mais urgente exigência é por um cara que goste de chupar. É isso mesmo que você leu: LAMBER-VAGINAS. Pode pendurar aí a plaquinha de “procura-se um amor que goste de chupar pepecas”.

Engana-se quem acha que esse meu pedido é singelo. Sim, homens adoram sexo oral. Mas só receber porque, na hora de oferecer, a coisa, ou melhor, os números mudam: uma pesquisa recente afirma que de um total de 1.252 homens heterossexuais, 78% recebe sexo oral frequentemente, mas quase a metade, 43% deles, não o pratica de volta. Ficou chocada? Pois ainda não terminou: dos caras que praticam, 1/3 tem nojo de fazer sexo oral na sua parceira. Ou seja, mesmo dentre os que fazem sexo oral, 35% diz que só o fazem porque têm “medo de ser considerado gay”, “medo de ser traído”, “porque tô com tesão e não penso na hora”, “porque amo minha parceira”, “para dar prazer a ela” e “para retribuir”. E isso me leva a uma terrível indagação. Caras que não chupam: onde vivem? De que se alimentam? Por que existem? De onde vem esse nojinho? Como lidar?

Acredito que essa atitude perante às nossas digníssimas vaginas só pode ter uma explicação: egoísmo ou nojinho. E sentir nojinho de buceta é misoginia. Não adianta vir me dizer que é uma questão de ~gosto ou que eu tô cagando regra porque esse é um assunto que atinge diretamente a vida sexual feminina. Há muitas mulheres que nunca tiveram um orgasmo na vida porque não conhecem o próprio corpo. E por que elas não se conhecem? Porque existem esse monte de estigmas sobre o órgão sexual feminino. A vagina sempre foi demonizada, somos ensinadas desde criança que ela é algo vergonhoso, o que leva muitas mulheres a sentir repúdio e nojo de si mesmas. A indústria pornô também pesa nessa realidade porque fortalece um modelo padrão de vaginas desprovídas de um único pelo. O cheiro, o gosto, a umidade, os pelos e a aparência da vagina são padronizados, plastificados, camuflados e adquirem a única função de satisfazer seu parceiro britadeira humana – e dificilmente ser saciada.

Resolvei adotar uma decisão bêbada para o resto da vida sóbria: NÃO CHUPADORES NÃO PASSARÃO! Quando tive esse lampejo de consciência, para provar meu compromisso com a causa, imediatamente deletei do whatsapp um PA que não cumpria o requisito. Até tinha cogitado continuar com o cara, mesmo com esse empecilho, afinal ele era gostosinho e mandava bem apesar dos pesares. Pensei em tratar na mesma moeda: já que você não me chupa, também não vou te chupar. Só que acontece que eu realmente gosto de cair de boca no que eu deveria retaliar. Cheguei à conclusão de que não seria justo. Não é legal pregar o revanchismo no sexo, porque o sexo representa justamente o avesso disso. Sexo é harmonia. É um momento em que não há separatismos, e sim comunhão de corpos. É chupar cada centímetro do corpo alheio e ser retribuído, é lamber cu, chupar buceta, levar tapa, levar dedada, dar tapa, gozar na cara, deixar ser gozado, amarrado, mordido, sentado, dominado. É sentir prazer em provocar prazer no outro. Sem censuras, sem inibições e sem nojinhos. Não rola dar pra quem tem nojo de uma parte minha tão importante.

Quem ama, chupa.

por  Laís Montagnana

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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Quase lá ...

Calhou de minha mãe se mudar justamente nesta época. Foi morar na praia. Fiquei livre no apartamento. Poderíamos ficar mais à vontade – ela disse que tinha vergonha de se trancar comigo no quarto com minha mãe por lá ...

Na primeira noite, a ansiedade era muita, mas segurei a bola, pra não forçar a barra. Armei o sofá-cama e ficamos lá, assistindo um filme – “Os Abutres têm fome”, com Clint Eastwood! Ou melhor:  TENTANDO! A mão boba estava a todo vapor, e as carícias rolavam soltas. Ela acariciando meu pau e eu finalmente sentindo sua bucetinha quentinha e molhadinha, com pelinhos bem aparadinhos, entre meus dedos. Num dado momento simplesmente desliguei a TV e puxei-a pra perto de mim, beijando e mordendo seus lábios com força. Tirei sua blusa e pude ver finalmente seus seios, pequenininhos, durinhos. Mamei com gosto, sugando e mordendo de leve os bicos. Ela fechava os olhos e mordia os lábios, acariciando meus cabelos.

Aí fui descendo por sua barriguinha, deliciosa. Acariciei os pelinhos que subiam pelo ventre e dei pequenas mordidas pelo seu corpo, enquanto desafivelava o cinto, descia o zíper e começava a tirar sua calça. A calcinha era branca e de algodão, com coraçõezinhos vermelhos estampados. Louco de tesão, aproximei meu rosto e senti o cheiro, delicioso, de sua bucetinha, nitidamente úmida. Dei uma pequena mordida, por sobre a calcinha mesmo, depois dei pequenas mordidinhas nas coxas, por dentro – ela soltou uns gemidinhos enlouquecedores – e, por fim, afastei a calcinha pro lado. Finalmente estava diante daquela parte da anatomia tão desejada e idolatrada, salve, salve! E era linda! Os pelinhos, muito bem aparados, deixavam à mostra um clitóris inchado e avantajado.O cheiro era delicioso, pra lá de afrodisíaco. Sentia meu pau duríssimo, a ponto de estourar dentro da cueca! Aproximei o nariz para sentir melhor, e finalmente passei a língua no clitóris. Ela gemeu e eu continuei, a princípio de leve e bem devagar, aumentando aos poucos o ritmo ...

Ela se contorcia e me chamava de gostoso, dizendo que aquilo era uma delícia. Segurei seu quadril pelas nádegas e elevei sua buceta até minha boca. Ela tremia e gemia. Aí coloquei-a de volta no colchão e tirei meu pau pra fora, duríssimo e “babadissimo”. Comecei a esfregá-lo em seu clitóris e ela fez uma cara assustada. Tranquilizei-a, dizendo que não ia meter, só queria sentir meu pau roçando na sua bucetinha. Ela deu um sorrisinho malicioso e relaxou, fechando os olhos e deixando a cabeça cair para trás. De vez em quando olhava para o meu pau e pra mim dizendo que estava delicioso. Aí parei “na portinha” e perguntei, olhando no fundo dos seus olhos: “tem certeza que não quer?”. “Hoje não”, ela responde. “Mas ta gostoso, continue”. Continuei. Até gozar. Um gozo forte, que inundou sua barriga de esperma. Ela sorriu. “Tão quente”, disse. “vou pegar papel pra limpar”. Fui. Quando voltei flagrei-a brincando com a porra dentro do umbigo. Limpei. Antes que levantasse de novo para jogar o papel fora, ela me puxa e me dá um beijo longo e apaixonado. “Te adoro”, ela diz.

Continua.

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